sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Página dos Enigmas nº 199


Este conto é um dos meus contos favoritos. Publicado inicialmente sob o pseudónimo de Mário Campino,  posteriormente M. Constantino publicou-o sob esta autoria.

Neste conto é importantíssimo o uso das palavras que levam à execução do crime perfeito. Seria possível que o perpetrador fosse condenado? Uma pergunta para todos os leitores do conto.

Um outro sentimento

Autor: M Constantino


Torre, de Vilarosa, não era Torre; mostrava-se, até, um homem pequeno, corpo delgado, movimentos suaves. De olhos cinzentos, estranhos, num rosto muito pálido, grisalho prematuramente nas têmporas realçado no contraste do cabelo escuro.

Verdade, verdade, também não era de Vilarosa; mas, quando se apeara do comboio das 12-12, deixando duas grandes malas usadas e incaracterísticas, no depósito da C. P., lançara um olhar apreciador ao largo da estação, limpo e tranquilo, de amoreiras verdinhentas nos passeios, alguém que o vira, profetizou que o homem viera para ficar.

Correta profecia…

Com efeito, o homem abrira o jornal que trouxera dobrado debaixo do braço, e consultara a página dos anúncios. Dirigira-se ao único carro de aluguer estacionado, trocara duas ou três palavras com o condutor e entrara no veículo. O automóvel arrancara e subira a colina, deixando atrás e abaixo o fumo do gasóleo. Rolara por entre ruas silenciosas, cercadas de olmos e árvores frondosas que escondiam residências de pedra e tijolo, um ou outro edifício mais moderno, e saíra no extremo oposto em direção ao campo. Cinco quilómetros bem puxados, diminuíra a marcha, tomara por um caminho secundário curvo e de mau piso, detendo-se, por fim, junto à casa grande — a “Quinta da Cobra”.

A moradia que se elevava logo por detrás do portão de ferro, cercada de sebes e amplo muro de pedra e cal, era uma das antigas mansões bem conservadas, ainda que em estado de abandono. Dois andares de tijolo vermelho, agora envelhecido e sujo, portas e janelas que foram brancas, um grande telhado alongado, onde se viam janelas de sótãos e chaminés.

Fim da jornada, despedira o carro com um gesto, passando uma nota ao condutor, mal reparando e não correspondendo aos agradecimentos.

O olhar mostrava-se fixo e determinado.

Enquanto o transporte se afastava, dera dois passos para a entrada principal, estendendo a mão para a coroa de luto suspensa da aldrava, semidesfeita pelo tempo, atirara-a para o chão, pisando-a sem rebuço. Empurrara a porta, que se abriu com um rangido impressionante de agonia, deixando pendentes teias de aranha destruídas.

Havia triunfo nos olhos cinzentos…

A noite, no Café do Largo, frente à estação, comentava-se que a palidez do homem cheirava a hospital ou prisão. Provavelmente esta última. Verdade, mais uma vez, é que ninguém, mesmo ninguém, tivera a coragem de lhe perguntar. Aliás, o próprio nome —Torre — só seria desvendado no dia seguinte, quando o senhor António do tabelião viera beber a quotidiana bica com cheirinho e adiantara que a “Quinta” lhe fora adjudicada. “Três centenas e meia de Donas Marias, contadas na sua frente, novas a estalar ao toque dos dedos.”

Não ficaria saciada, mesmo mitigada de algum modo, a ávida curiosidade dos vilarosenses. De resto, todas as potenciais expectativas, quanto a futuros conhecimentos, haviam de se evolar aos poucos, face à atitude reservada, pouco ou nada colaborante, do novo proprietário. O desejo de saber citadino transformar-se-ia em puro ressentimento, este em malévolo “diz-se diz-se” de interrogações ou de passar por certo. E estava assente: o homem seria um espião aposentado, um ladrão escondido… talvez- um bruxo!

 

Os acontecimentos precedentes ocorridos na “Quinta da Cobra”, antes “Quinta do Cerro”, teriam, de alguma forma, agudizado o doentio interesse. De facto, algo de insólito ali ocorrera. Na segunda metade dos anos trinta, um casal alemão e sua filha — Anne — uma graciosa menina de seis anos, ali se haviam acoitado fugindo à cegueira envolvente do nazismo em progressão na sua pátria.

A mansão, toda a enorme extensão murada, foram praticamente reedificada. Nunca a quinta tivera tantos cuidados.

Um dia, a despeito da paz imperante, a pequena Anne, descuidada e feliz, tomara o caminho empedrado até ao fim da propriedade e desaparecera como por evaporação. Tudo fora minuciosamente revistado. A busca alargara-se analogamente aos campos circundantes, a perder de vista, sem resultados positivos.

Ao cair da noite, o rapazio que cooperava nas pesquisas havia encontrado uma grande e sonolenta cobra enroscada no tronco dum pessegueiro. Mataram-na à paulada. Sugestão, por certo, ou crendice popular, asseverara-se que o réptil ao exalar o último suspiro soltara um ai agudo, como que um grito de criança!

Herr Fritz, ao ser-lhe contado o episódio, levara a mão ao peito e caíra fulminado por uma síncope. A viúva, ausente nesse dia, após o funeral, rumara para parte incerta. A “Quinta do Cerro”, passara a ser designada por “Quinta da Cobra”; as gentes do povoado evitavam o caminho da propriedade...

Conhecedor ou não da tragédia, Torre não se influenciara. Isolara-se. Aos bons-dias duma ocasional e tímida tentativa de aproximação, respondiam os olhos cinzentos do rosto inteligente com um olhar de gelo bastante para apressar os passos do atrevido; às pedras cegas atiradas de longe sobre o muro, por turbulenta garotice num gesto de arrogância ao medo, era a indiferença.

Na casa definira-se então certa limpeza. A alta erva fora cortada, algumas árvores: podadas; um fio de arame farpado, no alto do muro a toda a volta, demarcava uma fronteira intransponível, definitiva. E, por inexplicável magia, um grande cão, um alsaciano de pelagem parda, robusto, vincada agressividade, de íris de âmbar e olhar profundo, proporcionando uma sensação de nobreza e inteligência, convertera-se em guarda e inseparável companhia do solitário. Uma amizade identidade comuns aproximara-os. Uma palavra do dono — passe o exagero — o cão derrubaria uma árvore.

De longe em longe Torre descia à vila, única e exclusivamente para tomar o comboio da madrugada. Ausente, em média, três a quatro dias, reaparecia transportando uma pasta velha, não raro volumosa.

A coincidência destas ausências com roubos audaciosos noticiados pelos jornais, o mistério daquela pasta recheada nos regressos, motivava comentários: “o ladrão”, “o assaltante”, “o capitão de quadrilha”; “quem o sabe? ” Decididamente o povoléu não lhe perdoava a indiferença; não que se ralasse — o seu olhar denunciava desprezo e zombaria.

Como sempre acontece, o homem põe e Deus dispõe. Se bem que a animosidade e desconfiança dos habitantes de Vilarosa se mantivessem inquebrantáveis, imperturbável o isolamento, este havia de ser quebrado — e de que maneira!

Numa manhã fria, enigmática por inusitada, uma pancada soou na porta principal da vivenda, O cão enriçou o pelo rosnando. Torre acalmou-o. De má vontade abriu a porta. Um homem muito moreno estava na sua frente.

— Tive uma “pane” no carro. Poderia tele… — hesitou, abriu muito os olhos — mas… mas, tu és o Zé Torre!

Os olhos de Torre, o relâmpago de cólera, transformou-se em perplexidade.

— Olha, o Pedro Mata! Como me apareces aqui, homem de Deus? Julgava-te por essas Áfricas! Entra, entra!

Entrando, Pedro, deteve-se. O lobo de Alsácia, olhos em fogo, orelhas em riste, mostrava os dentes.

— Quieto “Duro”; deita-te!

O cão deitou-se. O proprietário voltou-se para Pedro:

— Diz-me lá o que é feito de ti, homem! Quando acabaram os nossos “arranjos”, soube que foras para África. Eu continuei. Instalei-me aqui, longe de todos. Saio de vez em quando, compreendes…

— Sim, fui para Angola. Estive na Diamang. Agora sou um retornado. Escapei com a roupa do corpo — riu — e um substancial saquinho de diamantes. Vendi um à chegada. Agora a lei anda atrás de mim. Se tantos fizeram como eu… Bem, ia a caminho da fronteira quando o carro avariou. Empurrei-o para o pinhal lá em baixo, oxalá passe despercebido à guarda republicana.

— Paz, homem, paz! Já vamos ver do automóvel, agora vamos tratar de nós.

Sentaram-se. Seria, porém, o dia das surpresas. Nova pancada na porta, a segunda do dia e a segunda também de há muitos anos, deixou Torre assombrado e Pedro tolhido de medo.

— Espera Zé, não há outra saída? Fui descoberto — tartamudeou o retornado.

— Calma. Deixa ver…

 — Olha Zé, estão aqui os diamantes, se for apanhado não quero que estejam em meu poder.

És meu amigo, esconde-os e não te arrependerás…

Puxou um pequeno saco do bolso interior e entregou-o a Torre.

— Certo. Vai ali para aquele salão — apontou. — Dá para o pátio. Tu fica quieto, “Duro” — acrescentou para o cão.

Repetiu-se a pancada.

— Lá vai, lá vai!

Abriu e deparou-se-lhe um padre. Torre não conseguiu esconder o embaraço. O velho prior, encostado à antiquada bicicleta, sorria-lhe. Conseguira vencer o próprio acobardamento e o isolamento que Torre tecera com tanta diligência.

— Bem… sou o prior da Igreja da Pedreira. Venho pedir-lhe um óbolo para a próxima procissão… espero que me perdoe…

— Mas… bem, entre, padre, Deixe-me só prevenir um amigo. Enquanto o padre transpunha a porta, voltou-se para o salão, elevou a voz:

— Pedro, aguarda!

Ouviu-se uma corrida. Na consciência do ex-empregado da Diamang, o vocábulo soara-lhe uma advertência: — a guarda! A guarda estava na sua peugada!

Torre acorreu, Nos olhos cinzentos surgiu um brilho de espanto, uma centelha que se espalhou à medida que se arregalavam. Bruscamente, estacou, relanceou, por cima do ombro um momentâneo olhar ao padre; os olhos reproduziam um outro sentimento. Em voz ligeiramente rouca gritou:

— Pedro! Pedro… Pedro Mata!

Inesperadamente o alsaciano surgiu. De um salto alcançou o fugitivo, derrubando-o. Percebeu-se um estertor.

Quando Zé Torre e o padre se aproximaram. Pedro havia sido atingido na carótida. Estava morto.

O cão obedecera à voz do dono.

 

NOTA:

Duas palavras consubstanciam o mistério. Á primeira “aguarda” (espera) é transformada pelo subconsciente do homem perseguido, numa terrível ameaça para ele “A guarda”, a guarda republicana. Daí que procure escapar-se.

A segunda palavra-chave, está encerrada num apelo inocente: “Pedro! Pedro… Pedro Mata!” Será que este último termo se transformou em mata, o incitamento para o cão?

Nenhum indício, nenhuma matéria incriminatória pode ali existir para o observador casual.

Apenas um olhar “um outro sentimento”, poderia denunciar um crime perfeito.


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