Este conto é um dos meus contos favoritos. Publicado inicialmente sob o pseudónimo de Mário Campino, posteriormente M. Constantino publicou-o sob esta autoria.
Neste conto é importantíssimo o uso das palavras que levam à execução do crime perfeito. Seria possível que o perpetrador fosse condenado? Uma pergunta para todos os leitores do conto.
Um outro sentimento
Autor: M Constantino
Torre, de Vilarosa, não era Torre;
mostrava-se, até, um homem pequeno, corpo delgado, movimentos suaves. De olhos
cinzentos, estranhos, num rosto muito pálido, grisalho prematuramente nas
têmporas realçado no contraste do cabelo escuro.
Verdade, verdade, também não era de
Vilarosa; mas, quando se apeara do comboio das 12-12, deixando duas grandes
malas usadas e incaracterísticas, no depósito da C. P., lançara um olhar
apreciador ao largo da estação, limpo e tranquilo, de amoreiras verdinhentas
nos passeios, alguém que o vira, profetizou que o homem viera para ficar.
Correta profecia…
Com efeito, o homem abrira o jornal
que trouxera dobrado debaixo do braço, e consultara a página dos anúncios.
Dirigira-se ao único carro de aluguer estacionado, trocara duas ou três
palavras com o condutor e entrara no veículo. O automóvel arrancara e subira a
colina, deixando atrás e abaixo o fumo do gasóleo. Rolara por entre ruas
silenciosas, cercadas de olmos e árvores frondosas que escondiam residências de
pedra e tijolo, um ou outro edifício mais moderno, e saíra no extremo oposto em
direção ao campo. Cinco quilómetros bem puxados, diminuíra a marcha, tomara
por um caminho secundário curvo e de mau piso, detendo-se, por fim, junto à
casa grande — a “Quinta da Cobra”.
A moradia que se elevava logo por
detrás do portão de ferro, cercada de sebes e amplo muro de pedra e cal, era
uma das antigas mansões bem conservadas, ainda que em estado de abandono. Dois
andares de tijolo vermelho, agora envelhecido e sujo, portas e janelas que
foram brancas, um grande telhado alongado, onde se viam janelas de sótãos e
chaminés.
Fim da jornada, despedira o carro
com um gesto, passando uma nota ao condutor, mal reparando e não correspondendo
aos agradecimentos.
O olhar mostrava-se fixo e
determinado.
Enquanto o transporte se afastava,
dera dois passos para a entrada principal, estendendo a mão para a coroa de
luto suspensa da aldrava, semidesfeita pelo tempo, atirara-a para o chão,
pisando-a sem rebuço. Empurrara a porta, que se abriu com um rangido
impressionante de agonia, deixando pendentes teias de aranha destruídas.
Havia triunfo nos olhos cinzentos…
A noite, no Café do Largo, frente à
estação, comentava-se que a palidez do homem cheirava a hospital ou prisão.
Provavelmente esta última. Verdade, mais uma vez, é que ninguém, mesmo ninguém,
tivera a coragem de lhe perguntar. Aliás, o próprio nome —Torre — só seria
desvendado no dia seguinte, quando o senhor António do tabelião viera beber a
quotidiana bica com cheirinho e adiantara que a “Quinta” lhe fora adjudicada.
“Três centenas e meia de Donas Marias, contadas na sua frente, novas a estalar
ao toque dos dedos.”
Não ficaria saciada, mesmo mitigada
de algum modo, a ávida curiosidade dos vilarosenses. De resto, todas as
potenciais expectativas, quanto a futuros conhecimentos, haviam de se evolar
aos poucos, face à atitude reservada, pouco ou nada colaborante, do novo
proprietário. O desejo de saber citadino transformar-se-ia em puro
ressentimento, este em malévolo “diz-se diz-se” de interrogações ou de passar
por certo. E estava assente: o homem seria um espião aposentado, um ladrão
escondido… talvez- um bruxo!
Os acontecimentos precedentes
ocorridos na “Quinta da Cobra”, antes “Quinta do Cerro”, teriam, de alguma
forma, agudizado o doentio interesse. De facto, algo de insólito ali ocorrera.
Na segunda metade dos anos trinta, um casal alemão e sua filha — Anne — uma
graciosa menina de seis anos, ali se haviam acoitado fugindo à cegueira
envolvente do nazismo em progressão na sua pátria.
A mansão, toda a enorme extensão
murada, foram praticamente reedificada. Nunca a quinta tivera tantos cuidados.
Um dia, a despeito da paz
imperante, a pequena Anne, descuidada e feliz, tomara o caminho empedrado até
ao fim da propriedade e desaparecera como por evaporação. Tudo fora
minuciosamente revistado. A busca alargara-se analogamente aos campos
circundantes, a perder de vista, sem resultados positivos.
Ao cair da noite, o rapazio que
cooperava nas pesquisas havia encontrado uma grande e sonolenta cobra enroscada
no tronco dum pessegueiro. Mataram-na à paulada. Sugestão, por certo, ou
crendice popular, asseverara-se que o réptil ao exalar o último suspiro soltara
um ai agudo, como que um grito de criança!
Herr Fritz, ao ser-lhe contado o episódio, levara a mão ao peito e caíra fulminado por uma síncope. A viúva, ausente nesse dia, após o funeral, rumara para parte incerta. A “Quinta do Cerro”, passara a ser designada por “Quinta da Cobra”; as gentes do povoado evitavam o caminho da propriedade...
Conhecedor ou não da tragédia,
Torre não se influenciara. Isolara-se. Aos bons-dias duma ocasional e tímida
tentativa de aproximação, respondiam os olhos cinzentos do rosto inteligente
com um olhar de gelo bastante para apressar os passos do atrevido; às pedras
cegas atiradas de longe sobre o muro, por turbulenta garotice num gesto de
arrogância ao medo, era a indiferença.
Na casa definira-se então certa
limpeza. A alta erva fora cortada, algumas árvores: podadas; um fio de arame
farpado, no alto do muro a toda a volta, demarcava uma fronteira
intransponível, definitiva. E, por inexplicável magia, um grande cão, um
alsaciano de pelagem parda, robusto, vincada agressividade, de íris de âmbar e
olhar profundo, proporcionando uma sensação de nobreza e inteligência,
convertera-se em guarda e inseparável companhia do solitário. Uma amizade
identidade comuns aproximara-os. Uma palavra do dono — passe o exagero — o cão derrubaria
uma árvore.
De longe em longe Torre descia à
vila, única e exclusivamente para tomar o comboio da madrugada. Ausente, em
média, três a quatro dias, reaparecia transportando uma pasta velha, não raro
volumosa.
A coincidência destas ausências com
roubos audaciosos noticiados pelos jornais, o mistério daquela pasta recheada
nos regressos, motivava comentários: “o ladrão”, “o assaltante”, “o capitão de
quadrilha”; “quem o sabe? ” Decididamente o povoléu não lhe perdoava a
indiferença; não que se ralasse — o seu olhar denunciava desprezo e zombaria.
Como sempre acontece, o homem põe e
Deus dispõe. Se bem que a animosidade e desconfiança dos habitantes de Vilarosa
se mantivessem inquebrantáveis, imperturbável o isolamento, este havia de ser
quebrado — e de que maneira!
Numa manhã fria, enigmática por
inusitada, uma pancada soou na porta principal da vivenda, O cão enriçou o pelo
rosnando. Torre acalmou-o. De má vontade abriu a porta. Um homem muito moreno
estava na sua frente.
— Tive uma “pane” no carro. Poderia
tele… — hesitou, abriu muito os olhos — mas… mas, tu és o Zé Torre!
Os olhos de Torre, o relâmpago de
cólera, transformou-se em perplexidade.
— Olha, o Pedro Mata! Como me
apareces aqui, homem de Deus? Julgava-te por essas Áfricas! Entra, entra!
Entrando, Pedro, deteve-se. O lobo
de Alsácia, olhos em fogo, orelhas em riste, mostrava os dentes.
— Quieto “Duro”; deita-te!
O cão deitou-se. O proprietário
voltou-se para Pedro:
— Diz-me lá o que é feito de ti,
homem! Quando acabaram os nossos “arranjos”, soube que foras para África. Eu
continuei. Instalei-me aqui, longe de todos. Saio de vez em quando,
compreendes…
— Sim, fui para Angola. Estive na
Diamang. Agora sou um retornado. Escapei com a roupa do corpo — riu — e um
substancial saquinho de diamantes. Vendi um à chegada. Agora a lei anda atrás
de mim. Se tantos fizeram como eu… Bem, ia a caminho da fronteira quando o
carro avariou. Empurrei-o para o pinhal lá em baixo, oxalá passe despercebido à
guarda republicana.
— Paz, homem, paz! Já vamos ver do
automóvel, agora vamos tratar de nós.
Sentaram-se. Seria, porém, o dia
das surpresas. Nova pancada na porta, a segunda do dia e a segunda também de há
muitos anos, deixou Torre assombrado e Pedro tolhido de medo.
— Espera Zé, não há outra saída?
Fui descoberto — tartamudeou o retornado.
— Calma. Deixa ver…
— Olha Zé, estão aqui os diamantes, se for
apanhado não quero que estejam em meu poder.
És meu amigo, esconde-os e não te
arrependerás…
Puxou um pequeno saco do bolso
interior e entregou-o a Torre.
— Certo. Vai ali para aquele salão
— apontou. — Dá para o pátio. Tu fica quieto, “Duro” — acrescentou para o cão.
Repetiu-se a pancada.
— Lá vai, lá vai!
Abriu e deparou-se-lhe um padre.
Torre não conseguiu esconder o embaraço. O velho prior, encostado à antiquada
bicicleta, sorria-lhe. Conseguira vencer o próprio acobardamento e o isolamento
que Torre tecera com tanta diligência.
— Bem… sou o prior da Igreja da
Pedreira. Venho pedir-lhe um óbolo para a próxima procissão… espero que me
perdoe…
— Mas… bem, entre, padre, Deixe-me
só prevenir um amigo. Enquanto o padre transpunha a porta, voltou-se para o
salão, elevou a voz:
— Pedro, aguarda!
Ouviu-se uma corrida. Na
consciência do ex-empregado da Diamang, o vocábulo soara-lhe uma advertência: —
a guarda! A guarda estava na sua peugada!
Torre acorreu, Nos olhos cinzentos
surgiu um brilho de espanto, uma centelha que se espalhou à medida que se
arregalavam. Bruscamente, estacou, relanceou, por cima do ombro um momentâneo olhar ao padre; os olhos reproduziam um outro sentimento. Em voz ligeiramente
rouca gritou:
— Pedro! Pedro… Pedro Mata!
Inesperadamente o alsaciano surgiu.
De um salto alcançou o fugitivo, derrubando-o. Percebeu-se um estertor.
Quando Zé Torre e o padre se
aproximaram. Pedro havia sido atingido na carótida. Estava morto.
O cão obedecera à voz do dono.
NOTA:
Duas palavras consubstanciam o
mistério. Á primeira “aguarda” (espera) é transformada pelo subconsciente do
homem perseguido, numa terrível ameaça para ele “A guarda”, a guarda
republicana. Daí que procure escapar-se.
A segunda palavra-chave, está
encerrada num apelo inocente: “Pedro! Pedro… Pedro Mata!” Será que este último
termo se transformou em mata, o incitamento para o cão?
Nenhum indício, nenhuma matéria
incriminatória pode ali existir para o observador casual.
Apenas um olhar “um outro
sentimento”, poderia denunciar um crime perfeito.

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