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quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Página dos Enigmas nº 310



Este conto foi publicado na revista Célula Cinzenta número 29, publicação da Associação Policiária Portuguesa.

É um conto curo, estilo que não é muito cultivado, talvez devido ás dificuldades que apresenta na sua elaboração.


O fundo da estrada velha

Autor: António Serra


… As botas produziam um ruído estranho ao pisarem o cascalho solto, do caminho que conduzia ao palheiro.

Tinha enfiado, à pressa, um casacão que usava em noites de temporal, bem como umas botas de carneira já gastas pelo correr dos anos. O frio misturado com a minha ânsia provocavam-me arrepios.

Acordara estremunhado com o ladrar dos cães. Olhara a janela e vira qualquer coisa como um grande clarão seguido dum som abafado, parecido como aquele que é produzido com o cair dum muro.

Seguia agora, quase que a trote, a caminho do barracão. A noite estava clara.

Uma lua bem cheia inundava de luminosidade todo o terreno de searas que me rodeava. A cerca de 20 metros estaquei. Estava ofegante e o suor corria-me por todo o corpo. A pouco e pouco recuperei o sangue frio. À medida que me ia aproximando via jorrar de dentro do palheiro uma luz intensa… e o cheiro que chegava até mim era um cheiro a queimado.

Não queria acreditar no que os meus olhos acabavam de presenciar.

— Mas porquê eu… meu Deus?!... — balbuciei.

Dei a volta e desatei a correr de volta a casa. Peguei no telefone e disquei, o mais rápido que os meus dedos podiam.

— Está?... Está lá por favor! — Sou eu novamente — disse afogueado — é para trazerem um reboque que desta vez foi… um camião TIR que me entrou pelo palheiro dentro!...

terça-feira, 2 de junho de 2026

A Página dos Enigmas nº 293

 


Neste conto o Policial e o Fantástico andam em simultâneo. No Concurso de Contos de 2004, no jornal Público, este conto ficou em primeiro lugar na categoria Conto Fantástico.

Depois de M. Constantino ter escrito um conto em que ocorre um crime perfeito, também aqui temos um, só que entra nos meandros do fantástico.


Crime Perfeito

Autor: Paulo


Finalmente cometera o crime perfeito. Jamais seria condenado pela morte do corpo que estava à sua frente. O seu regozijo transbordava a paisagem em seu redor, ultrapassava-a.

Como tudo fora fácil e sem deixar pistas incriminatórias. O local que em criança lhe servira como esconderijo nas brincadeiras, albergava agora a sua obra-prima.

Entrara no velho celeiro, que ele tão bem conhecia, com as ideias muito claras sobre o que pretendia fazer. Sabia que o tinham visto entrar, mas pouco se importara com tal facto. Seria mais rápido que eles e depressa ficaria inatingível.

A velha trave de madeira de nogueira, no teto, sempre o fascinara. Sempre o atraíra, como se ele adivinhasse que um dia serviria para o ajudar a realizar a sua mais completa obra. Era o cenário perfeito. Uma soberba pintura digna dos mais famosos pintores clássicos. Um Rembrandt, um Goya ou um Rafael.

Só faltavam os espectadores para admirarem a sua criação. Também esses não tardariam muito. Eles tinham-no visto entrar com a corda. Provavelmente tinham adivinhado a sua  intenção. Mas chegariam tarde demais para o impedir.

Entrara e fechara a porta suavemente. No seu cérebro as ideias estavam nítidas. Iria cometer o crime perfeito. Ninguém o poderia fazer sofrer as consequências de provocar aquela morte.

Por debaixo da trave colocara uma velha cadeira de carvalho.

Quantos anos teria? Quantas vidas teriam passado por ela? A quantos amores assistira? Se a cadeira pudesse falar quantas histórias contaria?

Passar a corda sobre a trave fora uma brincadeira de crianças. As duas pontas ficaram penduradas a balouçar num movimento pendular assincrónico, como o velho relógio desacertado da torre da igreja.

Depois fora o corpo em cima da mesa, amorfo, e sem vontade. Não oferecera resistência. Tivera a sensação que mais lhe parecera uma libertação, tal a indiferença perante a morte.

Como fora fácil colocar a corda em torno do pescoço daquele corpo mole, abúlico.

Estava decidido a ir até ao fim e nada o demoveria. Aproximava-se o clímax, a apoteose final.

Finalmente o pontapé na cadeira e a fascinação que se seguira. No imediato ficara tão feliz, que nada vira. Um clarão brilhante cegara-o por momentos. Apenas uma nuvem vermelha toldando-lhe os olhos, e depois... tudo ficara claro. Uma inundação de felicidade ao ver aquele corpo inútil a baloiçar. Aquele corpo ainda quente, vazio de vida. A sua obra-prima.

Tudo correra como planeado.

Começou a ouvir vozes do outro lado da porta. Chamavam por ele. Era tarde demais. Olhou em volta e viu que tudo estava fechado. Nem uma porta ou janela aberta. Tudo estava perfeito. Já nada poderia ser alterado.

Tentavam arrombar a porta que estremecia com os impactos, mas ele sabia que não cederia à primeira. Era uma porta à moda antiga. Madeira de carvalho. Ia dar-lhe tempo para desaparecer.

Parecia que as pancadas na porta faziam balouçar o corpo mais rapidamente, como se um resquício de vida ainda estivesse presente, e houvesse uma última possibilidade de salvação. Não passava de sugestão. A morte conquistara aquele pedaço de carne pendurado da corda.

Como se enganavam se pensavam que o poderiam apanhar. A inocência deles metia-lhe pena. Pareciam crianças. Não pensavam. Não imaginavam que seria impossível chegar até ele. Matara e ficaria impune.

A porta começava a ceder. Não demorariam muito tempo a atingir os seus intentos. Sairia antes que eles entrassem.

Olhou mais uma vez o corpo balouçante. A porta cedeu. Deu uma gargalhada, que ninguém ouviu, e saiu atravessando a parede.

sábado, 2 de maio de 2026

A Página dos Enigmas nº 276

 


Abrótea iniciou-se no mundo do policiário há muitos anos. Além de ir respondendo a problemas policiários e escrevendo alguns, também se dedicou à escrita de contos.

Foi autor do boletim Crimes e Passatempos onde publicou alguns dos seus escritos.

Este conto foi publicado no blogue Local do Crime, replicando a publicação jornal Audiência - Grande Porto.


O aluguer

Autor: Abrótea


Sabia que isto mais tarde ou mais cedo tinha de acontecer, a casa nem sequer era minha, o sogro é que a pagava, e nesse assunto nem eu podia abrir a boca e se piasse, (as vezes com um bom vinho de Pias ainda chegava lá) passava a noite no barraco de praia. Duas semanas para retirar a tralha, duas apenas. Como não era “biolento”, talvez lento mas não chegava a lentinho, decidi começar a procurar de imediato o meu palacete. Começar ou recomeçar do princípio até que não é difícil, o pior é apanhar com cada uma que até parece anedota… e foi, aconteceu, acontece a muito boa gente. Com a trouxa às costas lá saí de casa, uma trouxa “bem piquena”, ainda não podia levar muita coisa, o resto ficava para mais tarde, e se quisessem mandar fora, menos trabalho eu tinha, e assim ainda podia dormir nos braços da Luísa Tody, para nos dias seguintes recomeçar a procura, o que só acontecia depois do horário laboral. Entrei num café, uma imperial, enquanto fingia procurar moedas ou o porta-moedas, (na altura bolso roto), pedi desculpas e bebi a fresquinha na mesma, depois polidamente pedi o jornal da terra. Percorri a página dos anúncios só para verificar se havia algo de novo. Peguei no ”telelé”, (como sempre teso de saldo como eu) e a senhora, dona da loja, ao reparar, muito atenciosa emprestou-me o dela. Disse-lhe apenas por descargo de consciência que andava a procurar um quartinho, nem que fosse um vão de escadas. Ficou marcada uma entrevista para o dia seguinte, disse que apenas podia chegar depois das 19 horas, e na hora aprazada lá fui eu. (quase a caminho de Viseu, mas era em Setúbal ou arredores, ou ainda um pouco mais longe) A morada, essa, um escritório! E eu a pensar que já tinha quarto, ora bolas. 

Com tanta gente lá dentro até fiquei assustado, quase que apetecia dar meia volta e… ouvi chamar o meu nome, aguentei-me à bronca. Uma menina, seio farto, maior que uma elefanta, (ainda mais vontade de fugir tive) foi essa mesmo que tinha chamado, gritado o meu nome, empurrou-me para dentro do escritório onde em cima da secretária amontoavam-se folhas, resmas de folhas. Também já tinha comigo todos os documentos pedidos, menos dois. Entreguei recibos de vencimento, fotocópias do CU, ai, desculpem cartão de cidadão, NIB e NIF, faltava água e luz, mas isso o sogro pagava, não podia entregar. Para mim a “Ursa” já me assustava e com tudo isto ainda mais, até parecia estar em qualquer repartição de finanças, num banco, ou num assalto… aos bolsos meus!!! A “Baleia” começa a debitar palavras, e a mostrar o contrato, como não tinha as lentes de contacto, nem os contactos no velho “telelé”, nem sequer as lunetas, pedi-lhe para traduzir tudo por miúdos. Parecia aquelas velhas “IBM” a debitar letras: ponto 1- isto é um velho T0 e a renda é de 375 euro mês; ponto 2 - obrigatório pagar três meses de renda; ponto 3 - fico com as fotocópias dos seus documentos (caraças, a “Javali fêmea” tinha fotocopiadora); ponto 4 - o doutor Leve Twitter, que é o dono, irá analisar todos estes documentos, não só o seu como deve verificar. Terminou com isto por agora é tudo, e é o que se pode arranjar, depois ”telofone-me”. Estava quase a pensar alto, mas parei, uma bolachada daquela Fera mandava-me janela fora ao outro lado da rua. Só pedi, quando tiver alguma notícia telefone-me a senhora, tenho de trocar o cartão, os sogros não gostam de mim e este ainda tem os números… Dois dias passados e recebo uma chamada da “T-Rex”, falei o que antes tinha dito, apenas depois do meu horário laboral. Sim senhor pode vir, temos notícias. Eu esfregava as mãos de contente, afinal já não ia para debaixo da ponte. Chegado ao escritório, desta vez nem esperei muito, estava vazio, vazio não, a “Godzilla” estava lá. Cumprimentei a “Dona” educadamente e estendi a mão para receber a chave. Sente-se – falou ela com aquele vozeirão que acordava um quarteirão inteiro – o doutor analisou os seus documentos, e como ele é um homem bom, até tem pena de si tendo em conta o seu vencimento… Já estava com vontade de dar saltos, vocês sabem como é, mas dançar a (à) lambada com aquilo nunca na vida, eu é que perdia a minha. Relaxei e naquela calma que prenuncia algo nunca bom, pedi: pode continuar minha boa senhora. O senhor doutor gosta mesmo de si, o senhor trabalha, sabe o que faz no seu emprego, mas se pagar os três meses como o senhor vai comer? Foi o fósforo em cima da gasolina, muito calmo e ainda sentado, com o contrato perto de mim, agarrei-o e rasguei e só então disse: diga ao seu chefe que durante o dia eu trabalho, nas HORAS LIVRES ASSALTO VELHOS COMO ELE, E MULTIBANCOS!


quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Página dos Enigmas nº 258

 


Era um escritor com uma imaginação sem fim. A. Raposo era o pseudónimo ou nome curto adotado por António Rocha Raposo, que nos deixou inúmeros contos e múltiplos problemas policiários. Enigmas onde criou a personagem de Tempicos.

Neste conto enveredou pelo caminho da Ficção Científica.


E tudo começou no princípio

Autor: A. Raposo


Zoltan enxugou uma ténue lágrima ao canto do olho. Apesar de não pertencer à classe dos humanoides, tinha com estes enormes semelhanças. Era igualmente feito de carne e osso, respirava oxigénio e tinha sentimentos. Apesar do seu aspeto simiesco, do pelo que lhe cobria todo o corpo, do seu andar bamboleante, tinha um ar bonacheirão.

Zoltan vivia no planeia Zwig, que, por sua vez, pertencia à galáxia M107. Acabara de ver na máquina da História do Tempo o que ficou registado como o princípio e o fim da História do Planeta Terra. Com seu filho Moltan, tinham acabado de visionar o filme e ficaram ambos pensativos. Zoltan não conseguiu evitar uma lágrima. Já vira aquele filme várias vezes, mas ficava sempre emocionado. Desta vez quis mostrar ao filho aquele registo da história.

— Meu filho — disse-lhe — o que sucedeu ao planeta Terra, pode um dia acontecer ao nosso. As probabilidades são poucas mas existem. A Terra teve vida durante tanto tempo, depois, como viste, um asteroide chocou com ela e o resultado foi aquela enorme bola de fogo, que fez evaporar os oceanos e acabou com os terráqueos e tudo quanto tinham construído. Da terra só ficou este registo que os nossos antepassados preservaram. Conta-se que os nossos astronautas foram, há muito tempo à Terra, e, trouxeram alguns exemplares que, apesar de muito primitivos, conseguiram adaptar-se ao nosso meio. Ainda há meia dúzia de descendentes deles por aí, mas é gente muito esquisita. São poucos mas, mesmo assim andam sempre à guerra uns com os outros. Dizem os nossos intelectuais que a vinda dos terrestres trouxe mais problemas que vantagens. Mas, os que cá estão são os últimos descendentes da Terra.

— Mas, agora que a Terra acabou, o que é que podemos fazer? — perguntou Moltan.

— Bem — disse Zoltan — talvez alguma coisa. Vejamos aqui no aparelho como estará a Terra neste momento.

Zoltan carregou em vários botões e a informação começou a surgir no visor.

— Olá — disse Zoltan — sorrindo. A Terra ficará de novo habitável. Os níveis de oxigénio, humidade e azoto já estão praticamente iguais aos nossos, Vou pedir ao nosso Mestre de Zwig, para nos aconselhar o que fazer. Pzig, o Grande Mestre de Zwig, ouviu com paciência que lhe era peculiar, os argumentos de Zoltan, sobre a vantagem de enviar povoadores para a Terra.

O Grande Mestre ponderou todos os prós e os contras e, por fim, resolveu a favor de envio de uma nave, com um casal de descendentes dos terrenos, por sinal dois que se tinham mostrado mais difíceis de se adaptarem às leis de Zwig. Através de um intercomunicador chamou um guarda e ordenou-lhe: – Peguem nos dois presos, descendentes dos terráqueos, que estão nas masmorras do Palácio Real e metam-nos na primeira nave com destino à galáxia solar.

Deixem-nos lá na Terra. Mas, muita atenção, não se enganem, os nomes deles são Adão e Eva.

segunda-feira, 2 de março de 2026

A Página dos Enigmas nº 238

O Insólito e o Policiário estão muitas vezes ligados. Este conto ficou em 2º lugar, em 2005, no Concurso de Contos  da secção Policiário do jornal Público, na categoria de Conto Insólito.
O texto tem pequenas alterações em relação ao publicado originalmente, essencialmente eliminando pequenas gralhas.

O conto tem morte e violência, mas...


Uma janela aberta

Autor: Paulo

Olhou as mãos. Um ligeiro tremor passou pelo seu corpo. Sentia medo, mas, simultaneamente, também percebia o sentimento da coragem. Não podia hesitar. Era importante que não falhasse.

De longe chegava o rumor da trovoada. Nunca tremera ao som daquele fragor dos deuses, mas uma sensação nova percorria-o. Aquele ruído da natureza causava-lhe um ligeiro estremecimento. Ouvia a trovoada a aproximar-se, e ao mesmo tempo os seus olhos percebiam que as nuvens negras, que cobriam o céu que antes estivera azul, transformavam aquele início de tarde num crepúsculo antecipado do dia. Não demoraria muito para a chuva começar a cair abundantemente.

Sentia a pele a arrepiar-se. Estava hesitante. As mãos tremiam um pouco. Respirou profundamente, enchendo os pulmões, como se esperasse ver o medo sair junto com o ar expulso dos alvéolos pulmonares. Teria que recuperar a calma se não queria falhar.

A trovoada estava mais próxima. A chuva começava a cair em pingos temerosos e grossos. As nuvens negras avançavam, roubando cada vez mais luminosidade ao dia.

Pé ante pé, sem fazer qualquer ruído, aproximou-se da porta do quarto. Sabia que ela estava lá dentro. Vira-a entrar, deslizando silenciosa, pela janela que ficara aberta. Não fora um sonho. Fora real. Ele vira com os seus próprios olhos. Fora um retorno a pesadelos que lhe haviam atormentado o sono na sua meninice e que se tornavam realidade.

Nas mãos suadas segurava uma velha catana, que, rezavam as crónicas familiares, o seu avô trouxera de Angola como recordação do tempo de tropa. Todos esses anos, ali ficara, encostada a um canto, no barracão das arrumações, sem que ninguém se servisse dela, mas mantendo-se sem um único ponto de ferrugem. Finalmente a velha catana ia ser útil.

Estava junto à porta. Um relâmpago rasgou o negro das nuvens. Quase em simultâneo ouviu o forte ribombar de um trovão que o fez estremecer. A chuva perdeu o medo e começou a cair violentamente, parecendo querer inundar toda a Terra.

Apurou o ouvido, tentando ouvir qualquer ruído proveniente do quarto. A natureza não ajudava. O som da chuva cobria todos os outros sons.

A sua decisão estava tomada. Não podia recuar. Só poderia seguir em frente. Apertou mais fortemente a catana, com a mão direita, erguendo-a à altura do peito. Passou o polegar e o indicador da mão esquerda pelo afiado gume da lâmina, sentindo o aço frio nos dedos aguados pela elevada humidade e pelo suor nascido da ansiedade. Dentro de alguns instantes, ergueria a catana....e seria... a morte. A cabeça para um lado, o resto do corpo para o outro, contorcendo-se na agonia final. Repetiu várias vezes em pensamento: – Vou matá-la! Vou matá-la! Vou matá-la!

Os relâmpagos rasgavam agora o céu mesmo por cima da casa, fazendo as janelas estremecer com o troar arrítmico dos trovões. A chuva caía em fortíssimas bátegas, transformando estradas e caminhos térreos em transitórios rios.

Escutou outra vez com atenção, tentando ouvir qualquer ruído dentro do quarto. Nada se ouvia. Nenhum som. Olhou para a catana durante alguns segundos. Depois, lentamente, levantou os olhos, apontando-os para a porta do quarto. Olhou a porta como se pretendesse decorar cada um dos seus pormenores. Pensou na filha. Felizmente ainda não regressara da escola. Não assistiria aos acontecimentos que se avizinhavam. Evitaria assim muitas noites de pesadelos.

Sentiu um nó na garganta. Seria medo?...

Não conseguia interpretar as suas emoções, mas não deixaria que um imaginário terror o paralisasse. Estava decidido e nada o faria voltar atrás. Teria que resolver o assunto antes do regresso da filha.

Seria rápido. Abriria a porta e matá-la-ia rapidamente. A catana estava bem afiada. Um só golpe, desferido com alma, deveria bastar.

 Os seus olhos brilhavam de excitação. Já não lhe tremiam as mãos e o nó na garganta estava a desaparecer. Tinha chegado o momento.

Lentamente, muito lentamente, levantou a mão esquerda e envolveu com ela o manípulo do fecho da porta. Encheu os pulmões de ar e expirou vagarosamente, ao mesmo tempo que fechava os olhos.

Inspirou novamente,...abriu os olhos..., rodou o fecho e empurrou a porta violentamente. Saltou para dentro do quarto, olhou, e viu-a imediatamente. Levantou o braço direito, num movimento rápido, e com uma forte catanada cortou-lhe a cabeça. O resto do corpo ficou no chão, rastejando, contorcendo-se violentamente em movimentos frenéticos, ziguezagueantes; como se procurasse encontrar a cabeça que permanecia imóvel, em busca da vida que lhe fugia velozmente.

Levantou novamente a catana. Os seus olhos brilhavam de ódio. Deu mais um...dois... três....quatro golpes.

Parou ofegante. Ela continuava a mexer, no chão, mas ele sabia da inutilidade dos movimentos. Nada a afastaria da morte. A morte já a possuía.

Olhou pela janela aberta por onde alguma chuva entrara. O temporal amainara e a trovoada afastava-se. Não tardaria muito e o sol voltaria a brilhar. Ele veria o Sol, mas ela...não. Ela nunca mais veria o sol, a chuva, as nuvens, a lua ou as estrelas. Nunca mais veria nada. Nunca mais sentiria nada. Estava ali no chão, morta, e finalmente parara os seus movimentos.

Ele sorriu. Precisava limpar o quarto e eliminar todos os vestígios do que ocorrera. A sua filha deveria estar quase a chegar. Deveria evitar que ela tomasse conhecimento do que acontecera. Era necessário eliminar todos os vestígios. Ficaria com medo, assustada, e ele não queria isso. Era uma menina tão bonita e meiga. Não queria que ela se assustasse. Era a sua menina.

Olhou a catana. Desferiu um golpe no ar e saiu do quarto, onde no chão ficara morta, feita em pedaços, uma enorme cobra de cor preta que entrara pela janela.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A Página dos Enigmas nº 220

 


Este conto foi publicado originalmente no XYZ Magazine, número 29. O seu autor, António Breda Carvalho é hoje um escritor plenamente reconhecido, não chegando ainda aos 30 anos na época em que o conto foi publicado.

Antes de seguir as lides literárias A. Breda Carvalho andou pelo policiarismo, publicando, pelo menos, um problema em 1987 na seção Sábado Policiário do jornal Diário Popular.


Morte no cais

Autor: António Breda Carvalho


Naquela noite o cais era tranquilidade e escuridão. Os barcos quase quietos, dormitavam despreocupados. Só lá ao longe, no fim da doca, um candeeiro emanava uma fraca luz de presença. Num certo ponto da doca, três homens de pé, tácitos, olhavam para o mar.

— Que raio! — exclamou baixinho um dos homens.— Se ao menos pudéssemos fumar. — Chiu! — interrompeu outro. — Sinto alguém aproximar-se.

Calaram-se.

Lentamente, um vulto ia emergindo da escuridão. Deu mais alguns passos, e parou:

— Está aí alguém? — perguntou sussurrando.

— Até as gaivotas voam… — responderam do grupo.

— Se não lhes cortarem as asas — concluiu o recém-chegado

— É ele! — concordaram no grupo.

— Trazes a mercadoria?

— Está no “Boa Esperança”.

— Então, vamos ao negócio.

Caminharam ao longo do cais. Habituados à escuridão, as feições dos homens e os seus movimentos, tornavam-se mais reconhecíveis.

— Eh!, alto aí, seu canalha! — bradou um do grupo apontando uma arma ao visitante.— Você não é o “Sobe e Desce”. Ele é coxo e você anda corretamente.

— E daí? — interrogou com naturalidade o interpelado.— Foi substituído por mim. Não houve tempo para vos avisar.

— Não me levas com essa. Conheço todos os elementos da organização, e a tua cara é a primeira vez que a vejo. Pensavas que estavas protegido pela escuridão, não era?

— Ora, não sejam loucos. Venham ver…

Não acabou a frase. Alguém aproximara-se pelas costas, e cravou-lhe um punhal.

— Que fazemos com este tipo?

— Espera. Está aqui um bote amarrado ao cais. Deitamo-lo lá dentro e largamos o bote. Como a maré está a vazar, levá-lo-á para o mar alto. Se alguém o encontrar nunca o relacionará com este local.

— Apoiado. Mãos à obra.

— E a droga?

— Ainda acreditas nisso? Era uma cilada para nos encurralar no pesqueiro.

E afastaram-se rápidos.

Caminho cauteloso pela doca. Tudo é silêncio e escuridão. Apenas o soluçar das águas quebradas se fazem ouvir na noite. Avança alguns metros e… silêncio. Um silêncio que começa a causar-me preocupação.

Estou agora no local combinado. De novo, silêncio, água e os espectros de alguns barcos pesqueiros ao longe, balançando docemente, como encantados por não haver faina nessa noite.

Não. Não era só silêncio que eu esperava encontrar. Isto é presságio de que algo correu mal. Sim, a esta hora, três da manhã, com um silêncio perturbador, só duas coisa poderiam ter acontecido: ou a operação ainda não se realizou, mas neste caso deveria encontrar-se aqui o meu colega de ofício, o que não acontece, ou então, a operação efetuou-se mais cedo e ele foi descoberto. Se isto aconteceu, nem quero acreditar. Estava tudo planeado até ao mais ínfimo pormenor. De repente, lá vem o último telex: o intermediário é coxo. Não, não acredito nesse desfecho.

Continuo andando. Agora sinto a água mais agitada, num dos lados da doca. Curioso, abeiro-me da margem do cais. Está escuro. Num gesto rápido, acendo a lanterna.

Surpresa!!

Um bote dançava desgovernado. A corda que servira de amarra, mergulhava verticalmente na água. Não perco tempo. Procuro uma vara com a extremidade em foice, própria para puxar embarcações.

Sei que costuma haver algumas nestes sítios. Puxo o bote de encontro ao cais. Salto para dentro e tento puxar a corda que está presa ao fundo. Acendo novamente a lanterna. Um fogacho de luz ilumina o interior do bote, ao mesmo tempo que solto uma exclamação. Reconheço a letra do meu colega. Uma das tábuas dizia o seguinte: “os traficantes são cadastrados. Os códigos são: 33A, 4B1 e Z24E.

Intuitivamente puxo com força a corda, que vai cedendo a pouco e pouco. Tristemente, já adivinho o que vau encontrar: o corpo do meu colega.

É verdade!

“Malditos”, pensei.

Descobri o golpe nas costas. Compreendi tudo.

O meu amigo sentindo a morte aproximar-se, e sabendo que o bote se afastava devido à baixa-mar, atou à corda uma barra de chumbo que estava no bote, e utilizando a mesma corda, atou-a de seguida à perna, e atirou-se à água. Servira de âncora.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Página dos Enigmas nº 199


Este conto é um dos meus contos favoritos. Publicado inicialmente sob o pseudónimo de Mário Campino,  posteriormente M. Constantino publicou-o sob esta autoria.

Neste conto é importantíssimo o uso das palavras que levam à execução do crime perfeito. Seria possível que o perpetrador fosse condenado? Uma pergunta para todos os leitores do conto.

Um outro sentimento

Autor: M Constantino


Torre, de Vilarosa, não era Torre; mostrava-se, até, um homem pequeno, corpo delgado, movimentos suaves. De olhos cinzentos, estranhos, num rosto muito pálido, grisalho prematuramente nas têmporas realçado no contraste do cabelo escuro.

Verdade, verdade, também não era de Vilarosa; mas, quando se apeara do comboio das 12-12, deixando duas grandes malas usadas e incaracterísticas, no depósito da C. P., lançara um olhar apreciador ao largo da estação, limpo e tranquilo, de amoreiras verdinhentas nos passeios, alguém que o vira, profetizou que o homem viera para ficar.

Correta profecia…

Com efeito, o homem abrira o jornal que trouxera dobrado debaixo do braço, e consultara a página dos anúncios. Dirigira-se ao único carro de aluguer estacionado, trocara duas ou três palavras com o condutor e entrara no veículo. O automóvel arrancara e subira a colina, deixando atrás e abaixo o fumo do gasóleo. Rolara por entre ruas silenciosas, cercadas de olmos e árvores frondosas que escondiam residências de pedra e tijolo, um ou outro edifício mais moderno, e saíra no extremo oposto em direção ao campo. Cinco quilómetros bem puxados, diminuíra a marcha, tomara por um caminho secundário curvo e de mau piso, detendo-se, por fim, junto à casa grande — a “Quinta da Cobra”.

A moradia que se elevava logo por detrás do portão de ferro, cercada de sebes e amplo muro de pedra e cal, era uma das antigas mansões bem conservadas, ainda que em estado de abandono. Dois andares de tijolo vermelho, agora envelhecido e sujo, portas e janelas que foram brancas, um grande telhado alongado, onde se viam janelas de sótãos e chaminés.

Fim da jornada, despedira o carro com um gesto, passando uma nota ao condutor, mal reparando e não correspondendo aos agradecimentos.

O olhar mostrava-se fixo e determinado.

Enquanto o transporte se afastava, dera dois passos para a entrada principal, estendendo a mão para a coroa de luto suspensa da aldrava, semidesfeita pelo tempo, atirara-a para o chão, pisando-a sem rebuço. Empurrara a porta, que se abriu com um rangido impressionante de agonia, deixando pendentes teias de aranha destruídas.

Havia triunfo nos olhos cinzentos…

A noite, no Café do Largo, frente à estação, comentava-se que a palidez do homem cheirava a hospital ou prisão. Provavelmente esta última. Verdade, mais uma vez, é que ninguém, mesmo ninguém, tivera a coragem de lhe perguntar. Aliás, o próprio nome —Torre — só seria desvendado no dia seguinte, quando o senhor António do tabelião viera beber a quotidiana bica com cheirinho e adiantara que a “Quinta” lhe fora adjudicada. “Três centenas e meia de Donas Marias, contadas na sua frente, novas a estalar ao toque dos dedos.”

Não ficaria saciada, mesmo mitigada de algum modo, a ávida curiosidade dos vilarosenses. De resto, todas as potenciais expectativas, quanto a futuros conhecimentos, haviam de se evolar aos poucos, face à atitude reservada, pouco ou nada colaborante, do novo proprietário. O desejo de saber citadino transformar-se-ia em puro ressentimento, este em malévolo “diz-se diz-se” de interrogações ou de passar por certo. E estava assente: o homem seria um espião aposentado, um ladrão escondido… talvez- um bruxo!

 

Os acontecimentos precedentes ocorridos na “Quinta da Cobra”, antes “Quinta do Cerro”, teriam, de alguma forma, agudizado o doentio interesse. De facto, algo de insólito ali ocorrera. Na segunda metade dos anos trinta, um casal alemão e sua filha — Anne — uma graciosa menina de seis anos, ali se haviam acoitado fugindo à cegueira envolvente do nazismo em progressão na sua pátria.

A mansão, toda a enorme extensão murada, foram praticamente reedificada. Nunca a quinta tivera tantos cuidados.

Um dia, a despeito da paz imperante, a pequena Anne, descuidada e feliz, tomara o caminho empedrado até ao fim da propriedade e desaparecera como por evaporação. Tudo fora minuciosamente revistado. A busca alargara-se analogamente aos campos circundantes, a perder de vista, sem resultados positivos.

Ao cair da noite, o rapazio que cooperava nas pesquisas havia encontrado uma grande e sonolenta cobra enroscada no tronco dum pessegueiro. Mataram-na à paulada. Sugestão, por certo, ou crendice popular, asseverara-se que o réptil ao exalar o último suspiro soltara um ai agudo, como que um grito de criança!

Herr Fritz, ao ser-lhe contado o episódio, levara a mão ao peito e caíra fulminado por uma síncope. A viúva, ausente nesse dia, após o funeral, rumara para parte incerta. A “Quinta do Cerro”, passara a ser designada por “Quinta da Cobra”; as gentes do povoado evitavam o caminho da propriedade...

Conhecedor ou não da tragédia, Torre não se influenciara. Isolara-se. Aos bons-dias duma ocasional e tímida tentativa de aproximação, respondiam os olhos cinzentos do rosto inteligente com um olhar de gelo bastante para apressar os passos do atrevido; às pedras cegas atiradas de longe sobre o muro, por turbulenta garotice num gesto de arrogância ao medo, era a indiferença.

Na casa definira-se então certa limpeza. A alta erva fora cortada, algumas árvores: podadas; um fio de arame farpado, no alto do muro a toda a volta, demarcava uma fronteira intransponível, definitiva. E, por inexplicável magia, um grande cão, um alsaciano de pelagem parda, robusto, vincada agressividade, de íris de âmbar e olhar profundo, proporcionando uma sensação de nobreza e inteligência, convertera-se em guarda e inseparável companhia do solitário. Uma amizade identidade comuns aproximara-os. Uma palavra do dono — passe o exagero — o cão derrubaria uma árvore.

De longe em longe Torre descia à vila, única e exclusivamente para tomar o comboio da madrugada. Ausente, em média, três a quatro dias, reaparecia transportando uma pasta velha, não raro volumosa.

A coincidência destas ausências com roubos audaciosos noticiados pelos jornais, o mistério daquela pasta recheada nos regressos, motivava comentários: “o ladrão”, “o assaltante”, “o capitão de quadrilha”; “quem o sabe? ” Decididamente o povoléu não lhe perdoava a indiferença; não que se ralasse — o seu olhar denunciava desprezo e zombaria.

Como sempre acontece, o homem põe e Deus dispõe. Se bem que a animosidade e desconfiança dos habitantes de Vilarosa se mantivessem inquebrantáveis, imperturbável o isolamento, este havia de ser quebrado — e de que maneira!

Numa manhã fria, enigmática por inusitada, uma pancada soou na porta principal da vivenda, O cão enriçou o pelo rosnando. Torre acalmou-o. De má vontade abriu a porta. Um homem muito moreno estava na sua frente.

— Tive uma “pane” no carro. Poderia tele… — hesitou, abriu muito os olhos — mas… mas, tu és o Zé Torre!

Os olhos de Torre, o relâmpago de cólera, transformou-se em perplexidade.

— Olha, o Pedro Mata! Como me apareces aqui, homem de Deus? Julgava-te por essas Áfricas! Entra, entra!

Entrando, Pedro, deteve-se. O lobo de Alsácia, olhos em fogo, orelhas em riste, mostrava os dentes.

— Quieto “Duro”; deita-te!

O cão deitou-se. O proprietário voltou-se para Pedro:

— Diz-me lá o que é feito de ti, homem! Quando acabaram os nossos “arranjos”, soube que foras para África. Eu continuei. Instalei-me aqui, longe de todos. Saio de vez em quando, compreendes…

— Sim, fui para Angola. Estive na Diamang. Agora sou um retornado. Escapei com a roupa do corpo — riu — e um substancial saquinho de diamantes. Vendi um à chegada. Agora a lei anda atrás de mim. Se tantos fizeram como eu… Bem, ia a caminho da fronteira quando o carro avariou. Empurrei-o para o pinhal lá em baixo, oxalá passe despercebido à guarda republicana.

— Paz, homem, paz! Já vamos ver do automóvel, agora vamos tratar de nós.

Sentaram-se. Seria, porém, o dia das surpresas. Nova pancada na porta, a segunda do dia e a segunda também de há muitos anos, deixou Torre assombrado e Pedro tolhido de medo.

— Espera Zé, não há outra saída? Fui descoberto — tartamudeou o retornado.

— Calma. Deixa ver…

 — Olha Zé, estão aqui os diamantes, se for apanhado não quero que estejam em meu poder.

És meu amigo, esconde-os e não te arrependerás…

Puxou um pequeno saco do bolso interior e entregou-o a Torre.

— Certo. Vai ali para aquele salão — apontou. — Dá para o pátio. Tu fica quieto, “Duro” — acrescentou para o cão.

Repetiu-se a pancada.

— Lá vai, lá vai!

Abriu e deparou-se-lhe um padre. Torre não conseguiu esconder o embaraço. O velho prior, encostado à antiquada bicicleta, sorria-lhe. Conseguira vencer o próprio acobardamento e o isolamento que Torre tecera com tanta diligência.

— Bem… sou o prior da Igreja da Pedreira. Venho pedir-lhe um óbolo para a próxima procissão… espero que me perdoe…

— Mas… bem, entre, padre, Deixe-me só prevenir um amigo. Enquanto o padre transpunha a porta, voltou-se para o salão, elevou a voz:

— Pedro, aguarda!

Ouviu-se uma corrida. Na consciência do ex-empregado da Diamang, o vocábulo soara-lhe uma advertência: — a guarda! A guarda estava na sua peugada!

Torre acorreu, Nos olhos cinzentos surgiu um brilho de espanto, uma centelha que se espalhou à medida que se arregalavam. Bruscamente, estacou, relanceou, por cima do ombro um momentâneo olhar ao padre; os olhos reproduziam um outro sentimento. Em voz ligeiramente rouca gritou:

— Pedro! Pedro… Pedro Mata!

Inesperadamente o alsaciano surgiu. De um salto alcançou o fugitivo, derrubando-o. Percebeu-se um estertor.

Quando Zé Torre e o padre se aproximaram. Pedro havia sido atingido na carótida. Estava morto.

O cão obedecera à voz do dono.

 

NOTA:

Duas palavras consubstanciam o mistério. Á primeira “aguarda” (espera) é transformada pelo subconsciente do homem perseguido, numa terrível ameaça para ele “A guarda”, a guarda republicana. Daí que procure escapar-se.

A segunda palavra-chave, está encerrada num apelo inocente: “Pedro! Pedro… Pedro Mata!” Será que este último termo se transformou em mata, o incitamento para o cão?

Nenhum indício, nenhuma matéria incriminatória pode ali existir para o observador casual.

Apenas um olhar “um outro sentimento”, poderia denunciar um crime perfeito.


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A Página dos Enigmas nº 182

 


Mais um espaço neste blogue. Aqui, mensalmente, irão sendo publicados alguns contos de policiaristas e não só. Irão ser privilegiados os policiaristas portugueses, não por qualquer laivo de chauvinismo, mas porque este é mais um espaço que permitirá divulgar o que escrevem

Começamos com um conto que ficou classificado em 3º lugar em 2005 no jornal Público, no Concurso de Contos na modalidade Policial


O riso do destino

Autor: Paulo


           O chão lamacento da berma da estrada afundava-se debaixo dos sapatos. Jorge caminhava com passo firme, intencional, num sentimento que o seu rosto inexpressivo não mostrava. Olhava surpreendido tudo o que o rodeava: as árvores, as casas, os carros que passavam, as pessoas que com ele se cruzavam e que não o reconheciam, ou que fingiam não o reconhecer.

Treze anos. Fora muito tempo a ver o sol através do gradeamento de quadrados, ou pelo bordo superior dos muros do pátio. Tinham sido muitos anos sem poder respirar a brisa livre. Apenas a inspirar aquele ar, prisioneiro como ele, que embatia nos muros, nas paredes da cela, e que parecia ser sempre o mesmo: poluído, infecto, morno; com um sabor tão diferente do que ele aspirava agora sofregamente.

Treze anos a pagar um crime que não cometera, punido por uma culpa que não era sua. Treze anos de tristeza, amargura e revolta, a cismar sobre quem cometera o crime. Treze anos a recordar todos os pormenores, a recriar todos os movimentos, tentando encontrar a pista que o pudesse levar ao criminoso. A pista que a polícia não encontrara. Treze anos...Alberto aparecera morto com a garganta cortada. Jorge fora o principal suspeito.

Luta de amores. Luta pela Evelina. A sorte pendera para o seu lado, e a amizade de Alberto, que vinha desde a infância, perdera-se. A luta tornara-se real. Se não tivessem sido separados, talvez um ficasse morto nesse momento. Mas o destino não quisera assim. A tragédia tinha a hora marcada para mais tarde.

Como aparecera o seu porta-chaves junto do corpo? Treze anos à procura de explicação.

Talvez o tivesse perdido. Dois dias antes do crime estivera no local onde aparecera o corpo de Alberto, acompanhado por Evelina. Mais um encontro furtivo. Era o local onde deixavam correr a sua paixão impaciente. Talvez na sofreguidão dos movimentos, no meio do caos dos sentidos, o porta-chaves tivesse caído. Não dera pela sua falta, mas também raras vezes necessitava da chave para entrar em casa. Mas havia mais para explicar. Poderia decifrar o aparecimento do objeto, mas não conseguia explicar a morte de Alberto. Porque fora morto naquele local tão importante para si e para Evelina?

Depois fora o julgamento, em que ele não considerara importante mencionar o que fazia tantas vezes no local do crime. Nunca pensara que isso fosse importante. Preferira resguardar a mulher que amava. Sempre achara que bastaria dizer que já lá estivera antes. Mas não fora suficiente. Fora condenado. Depois Evelina sumira-se da sua vida. Ainda o visitara uma ou duas vezes e depois volatilizara-se.

Agora, Jorge caminhava novamente ao seu encontro. Não para reviver a paixão, apenas para esclarecer o passado.

Tirou o lenço de pano do bolso e assoou-se ruidosamente. A falta de hábito de andar à chuva constipara-o nas poucas horas que passara fora da prisão.

Treze anos depois, Evelina regressara. Porque aceitara vê-la, quando ela, surpreendentemente, aparecera na prisão para o visitar? Não sabia.

Curiosidade? Não conseguira classificar os seus sentimentos.

Ela aparecera. Mais velha, um pouco mais redonda, mas linda como sempre, com os olhos negros a parecerem atravessá-lo, e a fazerem com que esquecidos sentimentos, que ele julgava perdidos, voltassem a emergir. Contara-lhe uma história incrível. Casara com Henrique. O menino rico da aldeia. Aquele que se julgava dono de tudo e de todos. Jorge lembrava-se dele a tentar arrastar a asa a Evelina, mas sem ter qualquer possibilidade face aos dois concorrentes.

Evelina falara-lhe da solidão que sentira. Contara-lhe do apoio que Henrique lhe prestara nas horas difíceis que vivera. Informara-o do sentimento que os fora ligando e que os levara ao casamento. Mas contara-lhe mais. Descrevera-lhe como recentemente descobrira que fora o homem com quem estava casada que matara Alberto. Henrique falava de noite, e a dormir descrevera tudo. Referira, como na mesa do café, no meio de uma brincadeira de amigos, conseguira tirar-lhe o porta-chaves, e como o utilizara um dia depois. Contara como de um só golpe se livrara de dois adversários.

Evelina fora ter com Jorge a confidenciar-lhe o segredo. Não sabia o que fazer. Henrique, depois de acordado, negara tudo chamando-a louca. Que se ela contasse a alguém seria internada num manicómio. Mas ela precisava de desabafar. Correra à prisão para lhe contar, sendo essa também uma forma de aliviar a consciência, confessando-lhe que chegara a acreditar ser ele o assassino. A solidão atirara-a para Henrique, atitude de que se sentia arrependida, e que estava disposta a tentar remediar.

Que fazia ele, agora, a caminho da casa de Evelina? Porque escrevera a dizer-lhe que a iria visitar? Porque lhe prometera que os seus primeiros passos, assim que se visse em liberdade, o encaminhariam para ela? Não sabia. Era como se uma mão invisível o empurrasse. Rever Evelina? Vingar-se de Henrique? Eram muitas as questões que buliam dentro da sua cabeça e não encontravam resposta. Havia também algumas lacunas no relato de Evelina que ele pretendia esclarecer.

 À porta da casa viu o rosto aflito de Evelina. Segurou-lhe as mãos. Gaguejava, balbuciando sons desconexos, arrastando-o consigo. Ao transpor a porta do que lhe parecia ser uma sala de jantar, devido à grande mesa que ocupava parte do espaço, sentiu um baque. Um homem, que ele conseguiu reconhecer como sendo Henrique, jazia no chão com o peito cheio de sangue. A sua primeira reação foi fugir, mas parou a tempo. O destino ria-se dele novamente. Decidiu enfrentá-lo. Fugir seria uma prova de culpa.

Evelina contou-lhe tudo o que se passara. Henrique descobrira a visita que ela fizera à prisão. Encontrara a carta que ele enviara e ficara louco de ciúmes. Apontara-lhe a caçadeira carregada, mas depois disse-lhe que ficaria à espera. Dissera que primeiro o mataria a ele e depois pensava no que lhe faria a ela.

Fora o medo que lhe guiara as mãos. Num momento em que ele pousara a arma, ela pegara-lhe e atirara. Acontecera poucos minutos antes de Jorge chegar.

Enquanto falava, abraçava-se a Jorge, chorando, pedindo-lhe para partir. Dizia-lhe que se soubessem que ele lá estivera, ninguém o salvaria da prisão outra vez, mesmo que ela confessasse o crime. O melhor era ele desaparecer. Ela ocultaria a sua presença, e atiraria com as culpas para um ladrão. Dar-lhe-ia uns minutos para que ele fugisse e depois chamaria a guarda.

Quase que o empurrou da porta para fora. As lágrimas corriam-lhe pela face enquanto o via partir. Ele, sem palavras, inerte, abúlico, obedecia-lhe como um autómato.

Desviou-se da estrada principal, tentando não ser visto. Afastava-se da casa, confuso. Sentia-se um enviado da morte. Um criador de tragédias.

A chuva transformara-se num chuvisco persistente que afastava as pessoas da rua. Com um pouco de sorte ninguém o veria. Pensou que deveria ter trazido a carta que escrevera a Evelina. Se caísse nas mãos das autoridades, ele estaria perdido. De nada lhe valeria o que Evelina contasse. A carta seria fatal. Pensou em voltar atrás. Parou, decidido a retroceder, mas considerou que seria demasiado perigoso. Decerto que Evelina faria a carta desaparecer.

O chão molhado amolecia a terra, obrigando os sapatos a enterrarem-se. Os pés molhados fizeram-no espirrar. Pôs a mão no bolso para retirar o lenço. Estacou subitamente. Remexeu os bolsos todos, na esperança que o tivesse trocado de sítio.

Um feixe luminoso rasgou-lhe a mente. Finalmente compreendera. Esclarecera treze anos de dúvidas. O lenço desaparecera.