segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A Página dos Enigmas nº 220

 


Este conto foi publicado originalmente no XYZ Magazine, número 29. O seu autor, António Breda Carvalho é hoje um escritor plenamente reconhecido, não chegando ainda aos 30 anos na época em que o conto foi publicado.

Antes de seguir as lides literárias A. Breda Carvalho andou pelo policiarismo, publicando, pelo menos, um problema em 1987 na seção Sábado Policiário do jornal Diário Popular.


Morte no cais

Autor: António Breda Carvalho


Naquela noite o cais era tranquilidade e escuridão. Os barcos quase quietos, dormitavam despreocupados. Só lá ao longe, no fim da doca, um candeeiro emanava uma fraca luz de presença. Num certo ponto da doca, três homens de pé, tácitos, olhavam para o mar.

— Que raio! — exclamou baixinho um dos homens.— Se ao menos pudéssemos fumar. — Chiu! — interrompeu outro. — Sinto alguém aproximar-se.

Calaram-se.

Lentamente, um vulto ia emergindo da escuridão. Deu mais alguns passos, e parou:

— Está aí alguém? — perguntou sussurrando.

— Até as gaivotas voam… — responderam do grupo.

— Se não lhes cortarem as asas — concluiu o recém-chegado

— É ele! — concordaram no grupo.

— Trazes a mercadoria?

— Está no “Boa Esperança”.

— Então, vamos ao negócio.

Caminharam ao longo do cais. Habituados à escuridão, as feições dos homens e os seus movimentos, tornavam-se mais reconhecíveis.

— Eh!, alto aí, seu canalha! — bradou um do grupo apontando uma arma ao visitante.— Você não é o “Sobe e Desce”. Ele é coxo e você anda corretamente.

— E daí? — interrogou com naturalidade o interpelado.— Foi substituído por mim. Não houve tempo para vos avisar.

— Não me levas com essa. Conheço todos os elementos da organização, e a tua cara é a primeira vez que a vejo. Pensavas que estavas protegido pela escuridão, não era?

— Ora, não sejam loucos. Venham ver…

Não acabou a frase. Alguém aproximara-se pelas costas, e cravou-lhe um punhal.

— Que fazemos com este tipo?

— Espera. Está aqui um bote amarrado ao cais. Deitamo-lo lá dentro e largamos o bote. Como a maré está a vazar, levá-lo-á para o mar alto. Se alguém o encontrar nunca o relacionará com este local.

— Apoiado. Mãos à obra.

— E a droga?

— Ainda acreditas nisso? Era uma cilada para nos encurralar no pesqueiro.

E afastaram-se rápidos.

Caminho cauteloso pela doca. Tudo é silêncio e escuridão. Apenas o soluçar das águas quebradas se fazem ouvir na noite. Avança alguns metros e… silêncio. Um silêncio que começa a causar-me preocupação.

Estou agora no local combinado. De novo, silêncio, água e os espectros de alguns barcos pesqueiros ao longe, balançando docemente, como encantados por não haver faina nessa noite.

Não. Não era só silêncio que eu esperava encontrar. Isto é presságio de que algo correu mal. Sim, a esta hora, três da manhã, com um silêncio perturbador, só duas coisa poderiam ter acontecido: ou a operação ainda não se realizou, mas neste caso deveria encontrar-se aqui o meu colega de ofício, o que não acontece, ou então, a operação efetuou-se mais cedo e ele foi descoberto. Se isto aconteceu, nem quero acreditar. Estava tudo planeado até ao mais ínfimo pormenor. De repente, lá vem o último telex: o intermediário é coxo. Não, não acredito nesse desfecho.

Continuo andando. Agora sinto a água mais agitada, num dos lados da doca. Curioso, abeiro-me da margem do cais. Está escuro. Num gesto rápido, acendo a lanterna.

Surpresa!!

Um bote dançava desgovernado. A corda que servira de amarra, mergulhava verticalmente na água. Não perco tempo. Procuro uma vara com a extremidade em foice, própria para puxar embarcações.

Sei que costuma haver algumas nestes sítios. Puxo o bote de encontro ao cais. Salto para dentro e tento puxar a corda que está presa ao fundo. Acendo novamente a lanterna. Um fogacho de luz ilumina o interior do bote, ao mesmo tempo que solto uma exclamação. Reconheço a letra do meu colega. Uma das tábuas dizia o seguinte: “os traficantes são cadastrados. Os códigos são: 33A, 4B1 e Z24E.

Intuitivamente puxo com força a corda, que vai cedendo a pouco e pouco. Tristemente, já adivinho o que vau encontrar: o corpo do meu colega.

É verdade!

“Malditos”, pensei.

Descobri o golpe nas costas. Compreendi tudo.

O meu amigo sentindo a morte aproximar-se, e sabendo que o bote se afastava devido à baixa-mar, atou à corda uma barra de chumbo que estava no bote, e utilizando a mesma corda, atou-a de seguida à perna, e atirou-se à água. Servira de âncora.



1 comentário:

  1. O GRÁFICO:15:45

    »»» Mais uma excelente publicação deste Blogue! Outro trabalho notável do Confrade PAULO!!
    »»» O António Breda Carvalho, da Mealhada, é também um dos Policiaristas "nascidos" no "Mistério... Policiário" (Mundo de Aventuras) do inigualável "SETE DE ESPADAS"! ABC nasceu em Junho de 1960 e este Conto foi a resposta ao repto lançado pelo "SETE" no "XYZ-Magazine" n.º 24, Verão de 1982. A capa deste "XYZ" mostrava uma fotografia, em flash, de cor azul com um indivíduo de chapéu, agachado, apontando a luz de uma lanterna para as águas do cais! (Lembro-me... como se fosse hoje! Eu tinha 24 anos, o ABC... 22. Quando o Conto saiu... o António Breda Carvalho já completara 23). Por baixo da fotografia... estava o incentivo à escrita de um Conto que dizia o seguinte: "TEMA PARA UM CONTO. HABILITE-SE".
    Cheguei, também, a rascunhar umas palavras... na tentativa de escrever um texto sobre este repto, mas os rascunhos não passaram disso mesmo... e ainda estarão por aí, algures, esquecidos num caixote!
    Saudações Policiárias.
    O Gráfico (G/70)

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