sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A Página dos Enigmas nº 232

 

    Hoje é publicado um texto, que foi buscar a inspiração num outro, publicado por Luís Pessoa em maio de 2009 no jornal Público.

   Já após a escrita deste post, houve uma republicação do texto de Luís Pessoa no blogue Repórter de Ocasião.



O que é um  Problema Policiário?

    O que é um problema policiário? Será o problema policiário definível? 

      Há, na verdade, várias opiniões sobre aquilo em que consiste este conceito, que nem sempre são totalmente concordantes umas com as outras. 

   A minha opinião, é apenas mais uma. Já mais do que um policiarista abordou esta temática: Luís Pessoa, Constantino, Artur Varatojo, Lima Rodrigues, Sete de Espadas e outros que não são aqui nomeados.

    O conceito de problema policiário varia entre as pessoas e o que define um problema policiário para uma pessoa não o será para outra.

    Quem já dirigiu uma secção, teve que algumas vezes colocar-se a si esta questão: “Isto que estou a publicar é um problema policiário, mesmo que identificado como tal?”

   É uma pergunta que tem muitas respostas e nenhuma delas é a correta. Aqui, vai ficar mais uma.

    É a experiência de algumas décadas que me leva à definição aqui usada. Na minha opinião, nem todos os problemas publicados em secções policiárias, podem ser classificados como policiários. 

   Por algum motivo, alguns enigmas, têm nomes especiais: teste, advinha, etc. Alguns textos a que é atribuída a designação de policiário também não o deveriam ser.

     É frequente o solucionista deparar-se com um enigma que para ele não é um problema policiário. Nem todos os enigmas são policiários.

     Um problema policiário é-o pelo contexto em que a ação decorre. Deverá haver um delito que permita uma investigação. Seja ela feita a partir dos dados presentes no texto, ou uma pesquisa sobre um assunto que lá é focado.

    O delito poderá ser grave ou apenas ligeiro, como o roubo da vassoura para que a casa não seja varrida, mas terá que existir. Quando há investigação a partir de factos que estão longe da existência de qualquer delito, então não é um problema policiário.

    Para ser incluído nesta classificação de policiário, bastará que o texto tenha referências de contexto a crimes, investigações, etc.

    Também deve ser incluído como problema policiário aquele em que num contexto de delito, ou não, tem uma mensagem escondida, surja ela na forma criptográfica ou de interpretação do texto.

     O contexto, quando o crime não é evidente, será fundamental para que possa ser classificado como Problema Policiário.

  Não se pode esquecer que, muitas vezes, estes problemas, alegadamente policiários, têm um grau de dificuldade menor, e pode ser também uma opção do orientador da secção integrá-los, num qualquer torneio, como uma forma de captar novos aderentes à modalidade, aparecendo esses enigmas como Problemas Policiários.

  Esta classificação errónea sucede, por vezes, nos designados problemas de lógica, em que é necessário fazer um raciocínio que nada tem de policiário. Há apenas uma análise das diferentes premissas. 

     Veja-se o caso do problema nº 5 do Torneio de Outono, Férias de verão, de Beribica, publicado 6 de dezembro de 1986, no Diário Popular. Este problema não tem a menção a qualquer delito nem decorre em ambiente que origine uma investigação policial. É um problema de lógica, bastante estimulante, mas não faz sentido designá-lo como policiário.

   Outro tipo de problemas muito sujeito a esta situação, são os problemas de “caça ao erro”, onde podem existir erros no texto, que obriguem a uma investigação, mas cujo contexto não conduza a nenhuma investigação ligada a um delito. Trata-se de encontrar contradições entre o texto e a realidade. Isso tanto pode estar associado a um delito como não estar. Um problema de investigação interessante, mas que não considero policiário é «“Sir Aldra” Reaparece ou “Sir Aldra ataca” de novo», problema nº 5 do Torneio Cultores do Policiário, publicado em 1 de maio de 2024 no blogue Repórter de Ocasião. Mais uma vez, está-se perante um problema, que nem contextualmente conseguimos definir como policiário.

    Há ainda outros problemas que em nada contextualizam um delito. Veja-se A Vida de Diofanto, problema  nº 14 do Torneio dos Ases no jornal Público em 21 de junho de 1998. Trata-se apenas da resolução de uma equação matemática, que é preciso estabelecer (um dos processos), e que nada tem de policiário. É uma interpretação de um texto enigmático, mas sem contexto policiário.

    Também vivendo da contradição, mas sem contexto policiário, temos A Impossibilidade de Acnavart, publicado em Mistério Policiário em 28 de abril de 1977. Baseia-se na impossibilidade de um funeral estar marcado com uma semana de antecedência. Mais uma vez estamos perante um não Problema Policiário.

    Poderão estes problemas estar numa secção policiária e serem publicados como problemas policiários? O ideal é que não estivessem, mas, a falta de produções pode levar à sua publicação, e também daí, não vem o descrédito da modalidade. Os autores, sempre que possível, deverão contextualizar o texto num ambiente de cariz policiário, mas a história tem mostrado a publicação de muitos outros problemas.

    Vendo em retrospetiva, também eu já escrevi e publiquei alguns problemas que não classifico como policiários. Veja-se o problema Memórias, publicado na revista Sábado em 25 de março de 2021.

    São muitos os autores que abordaram temáticas não inseridas no policiário. Eu tentarei, após esta análise, melhorar aqueles que escrevo, fugindo a enigmas não policiários. 

    É uma promessa. Veremos se vou conseguir cumprir.


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