O conto é do Detective Agrafa Dor, desconhecendo-se quem se encontra por detrás deste pseudónimo. O conto foi concorrente na edição de 2020-2021 ao concurso Um Caso Policial em Gaia, dinamizado pela secção O Desafio dos Enigmas do jornal Audiência-Grande Porto.
Apenas um sonho
Autor: Detective Agrafa Dor
Foi andando até ao centro histórico
de Gaia, onde residia. Meteu a chave à porta e entrou para a sala de estar.
Olhou com aborrecimento a desarrumação generalizada, ali, e nas outras divisões. A
empregada com o
receio justificado de
ele deixar de
pagar os ordenados despedira-se,
quando num pico da crise, uns anos atrás, ele fora engrossar as fileiras da
multidão desempregada.
Ouvira dizer a
alguns camaradas que na
conjetura atual a
agricultura é que estava a dar, atraindo para a
atividade produtiva uma faixa considerável da
força de trabalho. A mecanização
do trabalho rural,
já lhe retira
parte da dureza
que lhe era intrínseca.
As lides agrícolas e a sua
característica sazonal começaram a proporcionar-lhe o recebimento de alguns
cobres, providenciais para assegurar a sobrevivência.
Fez entretanto formação
profissional em novas atividades, ficando apto para várias funções, tendo possibilidades de trabalhar
num leque de vastas áreas económicas.
Explorara a adversa informática,
tudo o
que antes era difuso e
enevoado, recortava-se agora com nitidez. Passara o “cabo” da ótica do
utilizador. Outras tarefas de que apenas conhecia alguma coisa, foram
devidamente estudadas.
Trabalhos temporários,
no setor industrial, foram surgindo,
ali e acolá
ao sabor da lei da oferta e da
procura, excelentes para adestramento e experiência, da arte laboral.
De
anúncio em anúncio,
de entrevista em
entrevista e corajosas
candidaturas espontâneas, no topo da
procura de emprego,
não houve um
momento de desânimo, nenhuma retirada estratégica,
porfiou-se um exemplar estoicismo.
Finalmente, aparecera uma fábrica a
precisar de pessoal.
Recebera o primeiro ordenado.
A realidade iria captar,
lentamente, novas facetas favoráveis à concretização do sonho: viver em paz.
Dedicara-se ao
trabalho, dia após
dia, e a
sua prestação era
rentável, a coordenação de
tarefas entre grupos,
eficaz e com
uma dinâmica própria
que se auto renovava
de acordo com
as vicissitudes do
processo de produção,
criava a mais-valia diária
digna de apreço e consideração.
Estava a pensar
deste modo, quando
resolveu abrir ao acaso o livro de bolso de temática policiária, que
trazia quase sempre consigo e foi lendo:
“Os estampidos soaram do lado
direito, porém o Mago da Finança, de visita ao país, fora atingido pelo flanco
esquerdo. Seriam dois atiradores, um com arma normal a fazer barulho, manobra
de distração, e outro de arma com silenciador, a matar? O hotel foi rapidamente
cercado pela polícia, as entradas e saídas encerradas, de maneira que ninguém
saísse ou entrasse. Foi seguida a trajetória das balas e a origem dos estrondos.
Os hóspedes
foram conduzidos para
uma sala de
reuniões. O comissário, estava de folga, mas
resolvera entrar de serviço, e tomar
as medidas necessárias, para identificar
o autor do
crime e o seu
cúmplice. Certificara-se que os hóspedes estavam todos
presentes. Foram de
imediato revistados. Duas senhoras sentiram-se mal e precisaram de
cuidados. Os socorristas trataram-nas bem.
O motivo seria alguma obscura tramoia
de espionagem? Gerou-se a confusão entre os presentes apanhados de surpresa e a
verem o fim de semana estragado.”
Uma buzinadela de automóvel fê-lo levantar
a cabeça, fechar o livro e sair da frente do veículo. Não se justificava que
tendo ele tempo para ler em casa, na biblioteca ou no café, o fizesse enquanto
andava na rua, arriscando-se a ser atropelado.
Lembrou-se da renda, água e luz
para pagar. Saciada a sede numa pausa rápida no bar, foi ao banco levantar
dinheiro. Pela quantidade de clientes, e o anseio estampado nos rostos, via-se
prontamente que era fim do mês.
Andava algo, um zum-zum pouco
percetível e admoestador no ar. Ainda estava a contar o dinheiro, quando um
grupo de assaltantes entrou de armas na mão. Caramba! (Há dias em que não se
pode sair de casa).
O ambiente ficou dramático e tenso.
Uma pequena distração é a morte do artista. Neste ínterim, um dos clientes
recebe uma chamada, e o toque estridente de sirene, que escolhera para o telemóvel,
imprevisto, desconcentrou e baralhou os bandoleiros. Entreolharam-se espantados
e fugiram em debandada.
É neste momento que sente uma sacudidela
no ombro. E ouve um dos porteiros dizer-lhe:
─ Acorde. O filme já acabou. O
cinema vai fechar.


