Este conto ganhou uma Menção Honrosa no Torneio Um caso Policial em Gaia, realizado em 2017 em O Desafio dos Enigmas do jornal Audência-Gande Porto. O seu autor é Daniel Maia um estreante na escrita de contos policiários.
O seu autor é de Santa Marinha
Viagem de teleférico
Autor Daniel Maia
O Joca foi sempre um menino da
mamã. E com ela foi ganhando gostos, hábitos e hobbies pouco próprios de um
macho em desenvolvimento. Nunca jogou à bola com os outros rapazes na rua e
jamais travou qualquer discussão com estes que acabasse por degenerar em
pancadaria. As bonecas eram a sua perdição, passando horas sem fim fechado em
casa a brincar às casinhas, às mamãs e aos bebés. O pai foi tolerando tudo isto
a muito custo, sempre na esperança de que o rapaz mudasse com a idade. Mas isso
nunca aconteceu, apesar de várias insistências em levá-lo ao futebol e ao
cinema ou a ver corridas de fórmula 1 ou de motocrosse. Nada. O que o Jocas
queria mesmo era ficar em casa, agarrado às bonecas ou a ajudar a mãe nas lides
domésticas. Enquanto isso, o tempo ia passando e o rapaz nunca deu a conhecer
namorada ou amiga especial.
A única pessoa fora do seu círculo familiar, mais
ou menos da sua idade, com quem Joca se deu durante algum tempo foi um colega
de escola, o Tó Zé, sua visita frequente de casa, com quem passava tardes
inteiras no quarto, após as aulas. Os livros de matemática e de ciências naturais
eram o pretexto para longas jornadas a dois, mas as notas naquelas duas
disciplinas eram sempre pouco mais do que miseráveis, como em todas as outras,
aliás, exceto educação visual. Sem grandes notas, começou a ser muito difícil
encontrar um curso que lhe fosse acessível.
Até que, aos dezoito anos, Jocas
decidiu que queria ser chef de cozinha, irritando solenemente seu pai, que
sempre sonhou uma profissão para o filho ligada ao direito, advogado como ele,
ou jurista, juiz ou até mesmo polícia de investigação criminal. Tudo menos uma
procissão de fêmea!
Aquela decisão do Joca provocou uma enorme discussão lá por
casa, com o pai a ameaçar o filho de acabar de vez com as mesadas e com a
autorização de saídas noturnas, que passaram a ser mais constantes, levando o
rapaz por empréstimo algumas das toilletes da mamã para alegadas cedências a
meninas filhas de famílias menos abonadas. No calor da discussão, o pai do
Jocas disse que o filho já foi visto algumas vezes pelos lados da Lavandeira,
junto ao Estádio Municipal, local onde não se conhece a existência de casas de
animação, pedindo, por isso, explicação para tal facto. A explicação do rapaz,
longe de acalmar os ânimos do progenitor, atiçou ainda mais a sua fúria,
desvendando, por fim, que um colega seu o terá visto por lá, de calças justas,
saltos altos e muito bamboleante, na companhia de gente indefinível quanto ao
género. Escusado será dizer que a mãe do Joca tomou a defesa do seu adorado
filho, defendendo que tudo não passava de má-língua de gente intriguista que
apenas queria causar mal-estar no seio da família. Muito sensível e dedicado à
mamã, o rapaz desatou num choro compulsivo que acabou por comover o próprio
pai, que chegou a admitir haver alguma confusão quanto à pessoa que foi vista a
fazer trottoir na Lavandeira, por ser uma zona mal iluminada e seu filho ter
uma configuração física muito comum à rapaziada da sua idade. Só que tinha
gestos e reações muito pouco comuns à esmagadora maioria dos filhos dos seus
amigos, o que o irritava por não saber as origens dessa particularidade. De uma
coisa ele estava seguro: o seu rapaz precisava de passar pela tropa para se
fazer homem, como aconteceu na sua juventude com muitos.
O pai do Joca está
convencido da absoluta necessidade do regresso do serviço militar obrigatório,
por considerar evidente a sua importância na cadeia de valores que se foram
perdendo no nosso país. O seu retorno – diz ele – seria o ponto de partida para
a reposição de um conjunto de fatores fundamentais ao nosso código de conduta,
que estão afastados do dia-a-dia da nossa sociedade e que a juventude podia
readquirir na instituição militar, nomeadamente no que concerne às suas
obrigações para com a pátria e a família. E, embrenhado nestes pensamentos,
lembrou-se que o seu Joca está na idade de ser convocado para o Dia da Defesa
Nacional, que se comemora no dia seguinte, o que confirmou logo de seguida num
Edital afixado na Junta de Freguesia da sua residência. E depressa correu para
casa, a fim de dar a boa nova à mulher e ao filho. Joca reclamou contra a ideia
do pai, invocando objeção de consciência, no que foi acompanhado pela mãe, mas
de nada lhe valeu.
A comparência no Dia da Defesa Nacional é um dever
obrigatório para todos os cidadãos que cumpram dezoito anos de idade, a que
ninguém se pode abster, a não ser por razões de saúde ou outras questões de
força maior devidamente justificadas – gritou-lhe o pai. E logo fez saber que
um filho seu nunca se eximirá ao cumprimento daquele dever, enquanto ele for
vivo. A discussão prolongou-se durante o resto do dia, mesmo à mesa do jantar,
com o pai a insistir no seu ponto de vista e Jocas e a mãe a defenderem opinião
contrária. E o conflito só parou quando o pai foi para a cama, não sem antes
ameaçar o filho que o acordaria com um balde de água pela cabeça abaixo se não
estivesse acordado à hora devida.
Ainda faltava uma hora para o içar
da bandeira nacional no quartel da Serra do Pilar quando um grupo de cerca de
cem jovens – mais raparigas que rapazes – passou a porta de armas para
participar no Dia da Defesa Nacional. Entre eles, estava um trio de rapazes que
se apresentaram como habitantes de Vila D’Este, um bairro social problemático
de Gaia.
Os três amigos, Pedro, Rui e Mário, não passaram despercebidos a Joca,
que escolheu um lugar estratégico de onde os não perdesse de vista, quando
começou a palestra sobre a defesa nacional e o papel das forças armadas. O
sorriso aberto do primeiro, o ar maroto do segundo e o aspeto descomplexado do
terceiro interessavam-no muito mais do que aquilo que o oficial de dia tinha
para lhes dizer, apesar de ele não ser nada de se deitar fora, como ouviu
exclamar a uma das meninas.
Na visita as instalações do quartel, que antecedeu
o momento do repasto por volta do meio-dia no refeitório, Joca não se coibiu de
se aproximar dos três rapazes de Vila D’Este, como se juntos formassem agora um
quarteto de amigos, não sentindo qualquer desconforto por parte deles. Pedro, o
sorridente, acolheu-o com gestos de alguma familiaridade, brindando-o com
algumas graçolas sobre as miúdas que faziam parte da comitiva. Rui, o
maroteiro, contava-lhe segredos ordinários ao ouvido, que o deixavam corado até
às orelhas. E Mário, o descomplexado da silva, deu-lhe o braço por diversas
vezes, enquanto procurava explicar-lhe para que servia cada apetrecho militar
com que se confrontavam, chegando a dizer-lhe que as camaratas davam-lhe alguma
tesão, por as camas estarem por cima uma das outras, como se estivem num
bacanal.
Quando o oficial de dia encaminhou os recrutas ocasionais de um dia para
o próximo módulo de debate, que culminou com o preenchimento de um inquérito
que visa conhecer melhor a juventude portuguesa, Joca dava graças ao seu pai
por o ter forçado a participar naquela jornada inteiramente dedicada ao serviço
militar. Ele estava completamente rendido, não ao quartel e aos tropas, mas às
amizades que angariou, imaginando já uma forma de perpetuar estes momentos para
além daquele dia de celebração da vida militar. E ainda antes do arriar da
bandeira, convidou os seus três amigos para uma viagem de teleférico, quando
saíssem dali, assumindo ele próprio as despesas inerentes. Pedro e Mário ainda
esboçaram uma negativa, mas Rui demonstrou-se muito animado com a ideia,
cochichando-lhes as razões da aceitação do convite. Pouco passava das cinco da
tarde quando os quatro desceram a rua Rodrigues de Freitas em direção ao Jardim
do Morro.
À chegada ao teleférico, aguardaram que uma família de turistas
ocupasse uma cabine do teleférico e só depois da partida desta é que Joca
comprou as quatro passagens. Dentro da cabine, com Mário e Pedro lado-a-lado e
os outros dois sentados de frente para eles, Rui sacou de uma faca que tinha
enfiada na meia da sua perna esquerda e apontou-a ao pescoço de Joca. Ato
contínuo, Mário gritou-lhe: “Passa para cá toda a guita, minha maricona!”
Pedro, sempre sorrindo, complementou: “E o cartão multibanco!” Aterrado, Joca
deu tudo o que tinha. Mas a coisa não ficou por ali. O último pedido saiu da
boca de Rui: “E o código do cartão, chavala, qual é?” Mas, com os nervos, Joca
não foi capaz de se lembrar do código. Insatisfeitos com aquele ataque de
amnésia, os rapazes começaram a abanar a cabine do teleférico, deixando Joca
aterrado de medo.
Agarrado com toda a sua força à parte inferior do assento,
deslizando sobre a esquerda e a direita à medida que a cabine era abanada, foi
suplicando que parassem.
Lá em baixo, os barcos deslizavam sobre o leito calmo
do rio e a populaça passeava-se tranquilamente no empedrado da marginal,
curiosamente apinhada de polícias. Ele gritava, gritava, mas de nada lhe valia,
porque ninguém o ouvia. Subitamente, a porta da cabine abriu-se para um voo
picado de Joca sobre as águas geladas do Douro, onde aterrou de cabeça. E foi
aí que ele acordou, quase sem respiração, com a água fria que o pai despejou
sobre a sua cabeça, ao mesmo tempo que gritava que era hora de se levantar e
rumar até ao quartel da Serra do Pilar…