Os inícios - Crime S. A.
Os mortos não falam foi o livro escolhido para iniciar a
coleção Crime S.A. da Editora Ulisseia, em 1990. O título é original, Speak for the dead, de 1988, sendo a obra da autoria de
Margaret Yorke,
Os inícios - Crime S. A.
Os mortos não falam foi o livro escolhido para iniciar a
coleção Crime S.A. da Editora Ulisseia, em 1990. O título é original, Speak for the dead, de 1988, sendo a obra da autoria de
Margaret Yorke,
Série – Drury Lane
Drury Lane é um antigo ator de
teatro. Afastado dos palcos devido à sua surdez, os proventos ganhos enquanto ator
permitiram-lhe construir um castelo nas margens do rio Hudson. Para aceder aos
seus domínios é necessário transpor uma ponte rústica, com um guarda a proteger
a entrada, e que se encontra fechada com um portão de ferro.
A seguir à ponte aparece uma floresta
de carvalhos, após a qual se encontra uma clareira onde se ergue o castelo, com
torreões, ameias e muros de granito. Depois de se entrar no castelo há uma
outra estrada que serpenteia entre jardins. Para aceder à casa é necessário
passar uma ponte levadiça sobre um fosso. Poder-se-ia pensar que se está
perante alguém que se quer proteger de invasores, mas tudo não passa de
excentricidades de milionário.
Lane foi um actor especializado em
peças de Shakespeare. Os seus criados no “castelo” que habita, todos eles
antigos trabalhadores do teatro, fosse na arte de representar ou em outra
qualquer outra atividade, têm nomes de
personagens criadas por este autor: Dromio, o motorista; Falstaff, o mordomo;
Quacey “caliban”, o jardineiro.
Fisicamente a primeira descrição de Lane surge
quando ele já tem 60 anos, apresentando-o como alto e magro, olhos verdes
acinzentados, pescoço bronzeado e musculoso. Possui voz sonora e possante. Esta
descrição é válida para os dois primeiros casos em que surge. Os dois últimos
decorrem 10 anos mais tarde, quando Lane já tem 70 anos, e no seu terceiro
caso, A tragédia do Z, surge como tendo ombros curvados, cabelos brancos, andar
vacilante e aspeto doente, situação essa que acabará por influenciar o desenlace
em A última tragédia. Drury Lane tem a faculdade de ler os lábios dos seus
interlocutores, o que só lhe permite “escutar” uma pessoa de cada vez.
O primeiro caso em que Drury Lane
surge é A tragédia de X, onde as suas qualidades de detetive são solicitadas
pelo Inspetor Thum e pelo procurador distrital Bruno. Durante o desenrolar da ação
tem-se conhecimento que a primeira façanha detectivesca de Lane foi num caso que
ele resolveu e comunicou por carta à polícia.
A atuação de Lane por vezes ocorre à
margem da lei. Em A tragédia de Y, uma criança comete uma série de crimes. Para
evitar que a atividade criminosa continue fica a insinuação de que Lane matou a
criança.
No seu último caso, A Última
tragédia, já condenado à morte pela
doença, ele comete uma assassínio, embora se possa alegar que em autodefesa,
para salvar uma carta de Shakespeare. Tendo sido descoberto esse seu ato pela
filha do seu amigo Thum, ele suicida-se.
Como nota curiosa dos seus casos,
fica a descrição de uma execução na cadeira elétrica a que Lane assistiu em A
tragédia de Z, caso que é narrado na primeira pessoa por Patiente Thum, filha
do inspector Thum, que nessa altura tinha já deixado a polícia, dirigindo uma
bem sucedida agência de detetives. É a surdez de Lane que deixa a pista que
permite a Patiente chegar à verdade.
A série originalmente surgiu criada
por Barnaby Ross, um pseudónimo que representava a mesma dupla de escritores
que assinava como Ellery Queen.
Eis a lista dos episódios protagonizados por
Drury Lane.
Titulo em Português, Coleção, Editora, Titulo original, Data da
publicação original
A tragédia de X, Vampiro, Livros do
Brasil, The Tragedy of X, 1932
A tragédia do Y, Circulo de Leitores, The Tragedy of Y, 1932
Xis, Minerva
A tragédia do Z, Policial, Empresa Nacional de Publicidade, The Tragedy of
Z, 1933
A última tragédia, Xis, Minerva, Drury
Lane's Last Case, 1933
Este conto foi o vencedor da 4 ª edição do Concurso Literário Professora Rosinda de Oliveira, decorrido em 2022.
Ouvem-se tiros, uma ameaça de morte, mas... por isso o conto fica no reino do insólito.
As dimensões do medo
Autor: Paulo
Passara
mais de uma hora desde que se sentara. O medo e o terror dominavam-no. Pessoas que
não conhecia perguntavam e respondiam por ele. O suor envolvia-o. A escuridão
cercava-o. Vultos sem rosto em seu redor. Sentados. Como ele. Mexeu-se. Assustado.
O que fazia naquele lugar? Não recordava como ali chegara. Tentou levantar-se.
Um dos desconhecidos gritou. À sua frente,
– quieto!
Deixou-se
cair na cadeira. Espantado. Aterrorizado. O homem apontava-lhe uma arma. Voltou
a gritar,
– quieto! não
volto a repetir!
Ficou
com os olhos escancarados. Presos na arma. Porquê? O que estava a suceder?
– confessa
que foste tu! confessa minúsculo verme!
O
espanto e o medo misturavam-se. Uma sensação de vazio subiu do estômago. Enovelou-se
na garganta. Não conseguia falar. Só a vigília húmida do medo o mantinha
consciente,
– foste tu
que os mataste, não é verdade? assume o teu crime!
Transpirava
cada vez mais. Aumentava o desconforto da roupa humidificada na pele quente,
– quieto!
Já
nem os olhos ousava mexer. Pupilas paradas no espanto e no medo. Só podia ser
um sonho. Um pesadelo. Meteu a língua entre os dentes. Apertou. Apertou. Apertou.
Começou a doer-lhe. Percebeu que não era um sonho. Era tudo real. Estava a ser
acusado de um crime que não cometera,
– sei que
foste tu! matares uma mulher e duas crianças a sangue frio! assassino!
Sabia
finalmente qual fora o crime. Descobrira de que o acusavam. Conseguiu gritar,
– não fui
eu! não fui eu! não fui eu!
Ouviu
vozes de irritação enfadada,
– chiu! calado!
As
vozes vinham de todos os lados. Afundou-se um pouco mais na cadeira. Que lhe
iriam fazer? Seria morto? Começou a chorar. Primeiro numa lágrima temerosa. Depois
num convulsivo choro silencioso. Nada fizera para merecer tal castigo,
– não chores!
és um cobarde! não vou sentir pena! tal como tu também não sentiste quando os
mataste!
Tinha
medo. Não queria morrer. Viu o homem apontar-lhe a arma ao coração. O dedo
curvar-se sobre o gatilho. Numa lentidão agonizante a curvar-se. A curvar-se. A
curvar-se. Ouviu a detonação. Não sentiu nada. Expirou o ar que os seus pulmões
continham, O homem falhara. Iria disparar novamente? Escapara uma vez. Sobreviveria
da próxima? O homem virou-lhe as costas. Afastava-se com a arma pendendo-lhe da
mão. Alguém acendeu as luzes. Olhou em redor. Viu os vultos tomarem formas bem
definidas. Levantavam-se das cadeiras onde estavam sentados. Terminara a sessão
de cinema em três dimensões.