sábado, 5 de setembro de 2026

A Página dos Enigmas nº 347

 

Os inícios - Crime S. A.



Os mortos não falam foi o livro escolhido para iniciar a coleção Crime S.A. da Editora Ulisseia, em 1990. O título é original, Speak  for the dead, de 1988, sendo a obra  da autoria de Margaret Yorke,

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Página dos Enigmas nº 346

 


Série – Drury Lane


Drury Lane é um antigo ator de teatro. Afastado dos palcos devido à sua surdez, os proventos ganhos enquanto ator permitiram-lhe construir um castelo nas margens do rio Hudson. Para aceder aos seus domínios é necessário transpor uma ponte rústica, com um guarda a proteger a entrada, e que se encontra fechada com um portão de ferro.

A seguir à ponte aparece uma floresta de carvalhos, após a qual se encontra uma clareira onde se ergue o castelo, com torreões, ameias e muros de granito. Depois de se entrar no castelo há uma outra estrada que serpenteia entre jardins. Para aceder à casa é necessário passar uma ponte levadiça sobre um fosso. Poder-se-ia pensar que se está perante alguém que se quer proteger de invasores, mas tudo não passa de excentricidades de milionário.

Lane foi um actor especializado em peças de Shakespeare. Os seus criados no “castelo” que habita, todos eles antigos trabalhadores do teatro, fosse na arte de representar ou em outra qualquer outra atividade, têm  nomes de personagens criadas por este autor: Dromio, o motorista; Falstaff, o mordomo; Quacey “caliban”, o jardineiro.

 Fisicamente a primeira descrição de Lane surge quando ele já tem 60 anos, apresentando-o como alto e magro, olhos verdes acinzentados, pescoço bronzeado e musculoso. Possui voz sonora e possante. Esta descrição é válida para os dois primeiros casos em que surge. Os dois últimos decorrem 10 anos mais tarde, quando Lane já tem 70 anos, e no seu terceiro caso, A tragédia do Z, surge como tendo ombros curvados, cabelos brancos, andar vacilante e aspeto doente, situação essa que acabará por influenciar o desenlace em A última tragédia. Drury Lane tem a faculdade de ler os lábios dos seus interlocutores, o que só lhe permite “escutar” uma pessoa de cada vez.

O primeiro caso em que Drury Lane surge é A tragédia de X, onde as suas qualidades de detetive são solicitadas pelo Inspetor Thum e pelo procurador distrital Bruno. Durante o desenrolar da ação tem-se conhecimento que a primeira façanha detectivesca de Lane foi num caso que ele resolveu e comunicou por carta à polícia.

A atuação de Lane por vezes ocorre à margem da lei. Em A tragédia de Y, uma criança comete uma série de crimes. Para evitar que a atividade criminosa continue fica a insinuação de que Lane matou a criança.

No seu último caso, A Última tragédia,  já condenado à morte pela doença, ele comete uma assassínio, embora se possa alegar que em autodefesa, para salvar uma carta de Shakespeare. Tendo sido descoberto esse seu ato pela filha do seu amigo Thum, ele suicida-se.

Como nota curiosa dos seus casos, fica a descrição de uma execução na cadeira elétrica a que Lane assistiu em A tragédia de Z, caso que é narrado na primeira pessoa por Patiente Thum, filha do inspector Thum, que nessa altura tinha já deixado a polícia, dirigindo uma bem sucedida agência de detetives. É a surdez de Lane que deixa a pista que permite a Patiente chegar à verdade.

A série originalmente surgiu criada por Barnaby Ross, um pseudónimo que representava a mesma dupla de escritores que assinava como Ellery Queen.

 

 Eis a lista dos episódios protagonizados por Drury Lane.

Titulo em Português, Coleção, Editora, Titulo original, Data da publicação original

A tragédia de X, Vampiro, Livros do Brasil, The Tragedy of X, 1932

A tragédia do Y, Circulo de Leitores, The Tragedy of Y, 1932

                                 Xis, Minerva             

A tragédia do Z, Policial, Empresa Nacional de Publicidade, The Tragedy of Z, 1933

A última tragédia, Xis, Minerva, Drury Lane's Last Case,  1933


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A Página dos Enigmas nº 345

 


Este conto foi o vencedor da 4 ª edição do Concurso Literário Professora Rosinda de Oliveira, decorrido em 2022. 

Ouvem-se tiros, uma ameaça de morte, mas... por isso o conto fica no reino do insólito.


As dimensões do medo

Autor: Paulo


Passara mais de uma hora desde que se sentara. O medo e o terror dominavam-no. Pessoas que não conhecia perguntavam e respondiam por ele. O suor envolvia-o. A escuridão cercava-o. Vultos sem rosto em seu redor. Sentados. Como ele. Mexeu-se. Assustado. O que fazia naquele lugar? Não recordava como ali chegara. Tentou levantar-se. Um dos desconhecidos gritou. À sua frente,

– quieto!­

Deixou-se cair na cadeira. Espantado. Aterrorizado. O homem apontava-lhe uma arma. Voltou a gritar,

­– quieto! não volto a repetir!

Ficou com os olhos escancarados. Presos na arma. Porquê? O que estava a suceder?

­– confessa que foste tu!­ confessa minúsculo verme!

O espanto e o medo misturavam-se. Uma sensação de vazio subiu do estômago. Enovelou-se na garganta. Não conseguia falar. Só a vigília húmida do medo o mantinha consciente,

– foste tu que os mataste, não é verdade? assume o teu crime!

Transpirava cada vez mais. Aumentava o desconforto da roupa humidificada na pele quente,

 – quieto!

Já nem os olhos ousava mexer. Pupilas paradas no espanto e no medo. Só podia ser um sonho. Um pesadelo. Meteu a língua entre os dentes. Apertou. Apertou. Apertou. Começou a doer-lhe. Percebeu que não era um sonho. Era tudo real. Estava a ser acusado de um crime que não cometera,

– sei que foste tu! matares uma mulher e duas crianças a sangue frio! assassino!

Sabia finalmente qual fora o crime. Descobrira de que o acusavam. Conseguiu gritar,

– não fui eu! não fui eu! não fui eu!

Ouviu vozes de irritação enfadada,

– chiu! calado!

As vozes vinham de todos os lados. Afundou-se um pouco mais na cadeira. Que lhe iriam fazer? Seria morto? Começou a chorar. Primeiro numa lágrima temerosa. Depois num convulsivo choro silencioso. Nada fizera para merecer tal castigo,

– não chores! és um cobarde! não vou sentir pena! tal como tu também não sentiste quando os mataste!

Tinha medo. Não queria morrer. Viu o homem apontar-lhe a arma ao coração. O dedo curvar-se sobre o gatilho. Numa lentidão agonizante a curvar-se. A curvar-se. A curvar-se. Ouviu a detonação. Não sentiu nada. Expirou o ar que os seus pulmões continham, O homem falhara. Iria disparar novamente? Escapara uma vez. Sobreviveria da próxima? O homem virou-lhe as costas. Afastava-se com a arma pendendo-lhe da mão. Alguém acendeu as luzes. Olhou em redor. Viu os vultos tomarem formas bem definidas. Levantavam-se das cadeiras onde estavam sentados. Terminara a sessão de cinema em três dimensões.