segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A Página dos Enigmas nº 366


Os inícios - Donald Lam & Bertha Cool



Em 1939, Erle Stanley Gardner, sob o pseudónimo de A. A. Fair, publicou o primeiro livro com a dupla Donald Lam e Bertha Cool, The bigger they com. 

Em Portugal a coleção Vampiro publicou a tradução Divórcio Sangrento. Não tem data de publicação, mas tudo aponta para perto da metade da década de 50.


A Página dos Enigmas nº 365

 


Autor: John Dickson Carr


John Dickson Carr é considerado o mestre dos “crimes em quarto fechado”, consequência de a maior parte dos seus romances decorrem nesse tipo de cenário. As obras de “quarto fechado” são sempre fascinantes, uma vez que buscam a ligação que existe entre o fantástico e o racional

Carr é também um dos grandes nomes da chamada “idade de ouro” da literatura policial. Esta idade de ouro decorre entre o início da década de vinte do século passado até aproximadamente 1945, marca um estilo pouco preocupado com problemas sociais ou políticos, e em que o importante é o puzzle criado pelo autor, que o detetive, normalmente da classe aristocrática ou bastante erudito, resolve no final, tendo também o leitor os elementos que possibilitam tirar as mesmas conclusões. Este estilo é marcadamente inglês e John Dickson Carr é um dos poucos autores americanos que o seguiu.

Jorge Luís Borges, escritor argentino, sem dúvida um dos génios da literatura do século XX, e grande admirador da literatura policial, considerava que Carr combinava a rapidez da escola americana com o rigor intelectual da escola inglesa.

A obra de Carr sofreu algumas influências de escritores que o antecederam. Gaston Leroux, Gilbert. K. Chesterton e Conan Doyle são autores que o influenciaram. O seu gosto pelo “quarto fechado” terá sido bebido em Chesterton, que acaba por ser retratado, num acto de homenagem, numa das personagens mais famosas que criou, embora também existam referências na sua obra, da grande admiração que tinha pelo “Mistério do quarto amarelo” de Gaston Leroux.

Foi um estudioso da obra de Doyle, tendo produzido uma biografia do criador de Sherlock Holmes em 1949. Em 1954 escreveu, juntamente com o filho de Doyle, um pastiche, The Exploits of Sherlock Holmes.

Nos seus primeiros livros, (1929-1932), usa um estilo muito melodramático que viria a abandonar, seguindo-se aquele que é considerado o seu período de maior qualidade, os anos que decorreram de 1934 a 1944, surgindo um pequeno declínio em 1936 e 1937.

As histórias de Carr parecem impregnadas de fenómenos de bruxaria e sobrenatural, que no final se esclarecem de forma racional, com a ciência a vencer o obscurantismo.

Logo no inicio dos casos e mesmo durante a investigação do crime surgem imensos eventos secretos e inexplicáveis, mas, na parte final, é tudo revelado, explicando-se todos os factos, embora nem sempre seja claro que o leitor pudesse chegar às mesmas conclusões que o detetive a partir dos elementos conhecidos da investigação.

A obra de Carr não está impregnada só desse ambiente sobrenatural, mas também de episódios bem-humorados, num ambiente de comédia, embora esse humor por vezes oscile entre o bizarro e o tétrico.

As suas chaves apesar de nem sempre serem muito claras, não recorrem a truques. Não há passagens secretas, venenos desconhecidos, irmãos gémeos ou compartimentos ocultos. As histórias de Carr são essencialmente intuitivas, não dependendo de pistas físicas, como pégadas, impressões digitais, restos de tabaco, características de venenos ou balística.

Uma das críticas apontadas a John Dickson Carr é a falta de caracterização e de calor humano das suas personagens e o facto de muitas vezes sacrificar a arte e a técnica, no intuito de deslumbrar o leitor, criando situações que possam impressionar a imaginação.

Em 1955 Carr afirmou ter encontrado 83 chaves diferentes para crimes em quarto fechado. Já em 1933 no livro The hollow man, no capítulo 17, Carr através da personagem de Fell, desenvolve as suas opiniões acerca do que é um crime em quarto fechado e das várias formas como pode ser cometido.

A partir de 1950 Carr começou também a dedicar-se ao romance histórico, mostrando o seu interesse pela história inglesa, que já anteriormente surgira no romance The Arabian Nights Murder

Carr é um escritor que suscita paixões. Tem admiradores incondicionais e imensos detratores que ridicularizam as suas chaves e os seus escritos. Normalmente, esta dualidade de apreciações só é aplicável a quem inova e consegue ser criativo. Apenas a mediocridade provoca a indiferença.


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A Página dos Enigmas nº 364

 


Este conto ganhou uma Menção Honrosa no Torneio Um caso Policial em Gaia, realizado em 2017 em O Desafio dos Enigmas do jornal Audência-Gande Porto. O seu autor é Daniel Maia um estreante na escrita de contos policiários. 

O seu autor é de Santa Marinha


Viagem de teleférico

Autor Daniel Maia


O Joca foi sempre um menino da mamã. E com ela foi ganhando gostos, hábitos e hobbies pouco próprios de um macho em desenvolvimento. Nunca jogou à bola com os outros rapazes na rua e jamais travou qualquer discussão com estes que acabasse por degenerar em pancadaria. As bonecas eram a sua perdição, passando horas sem fim fechado em casa a brincar às casinhas, às mamãs e aos bebés. O pai foi tolerando tudo isto a muito custo, sempre na esperança de que o rapaz mudasse com a idade. Mas isso nunca aconteceu, apesar de várias insistências em levá-lo ao futebol e ao cinema ou a ver corridas de fórmula 1 ou de motocrosse. Nada. O que o Jocas queria mesmo era ficar em casa, agarrado às bonecas ou a ajudar a mãe nas lides domésticas. Enquanto isso, o tempo ia passando e o rapaz nunca deu a conhecer namorada ou amiga especial. 

A única pessoa fora do seu círculo familiar, mais ou menos da sua idade, com quem Joca se deu durante algum tempo foi um colega de escola, o Tó Zé, sua visita frequente de casa, com quem passava tardes inteiras no quarto, após as aulas. Os livros de matemática e de ciências naturais eram o pretexto para longas jornadas a dois, mas as notas naquelas duas disciplinas eram sempre pouco mais do que miseráveis, como em todas as outras, aliás, exceto educação visual. Sem grandes notas, começou a ser muito difícil encontrar um curso que lhe fosse acessível. 

Até que, aos dezoito anos, Jocas decidiu que queria ser chef de cozinha, irritando solenemente seu pai, que sempre sonhou uma profissão para o filho ligada ao direito, advogado como ele, ou jurista, juiz ou até mesmo polícia de investigação criminal. Tudo menos uma procissão de fêmea! 

Aquela decisão do Joca provocou uma enorme discussão lá por casa, com o pai a ameaçar o filho de acabar de vez com as mesadas e com a autorização de saídas noturnas, que passaram a ser mais constantes, levando o rapaz por empréstimo algumas das toilletes da mamã para alegadas cedências a meninas filhas de famílias menos abonadas. No calor da discussão, o pai do Jocas disse que o filho já foi visto algumas vezes pelos lados da Lavandeira, junto ao Estádio Municipal, local onde não se conhece a existência de casas de animação, pedindo, por isso, explicação para tal facto. A explicação do rapaz, longe de acalmar os ânimos do progenitor, atiçou ainda mais a sua fúria, desvendando, por fim, que um colega seu o terá visto por lá, de calças justas, saltos altos e muito bamboleante, na companhia de gente indefinível quanto ao género. Escusado será dizer que a mãe do Joca tomou a defesa do seu adorado filho, defendendo que tudo não passava de má-língua de gente intriguista que apenas queria causar mal-estar no seio da família. Muito sensível e dedicado à mamã, o rapaz desatou num choro compulsivo que acabou por comover o próprio pai, que chegou a admitir haver alguma confusão quanto à pessoa que foi vista a fazer trottoir na Lavandeira, por ser uma zona mal iluminada e seu filho ter uma configuração física muito comum à rapaziada da sua idade. Só que tinha gestos e reações muito pouco comuns à esmagadora maioria dos filhos dos seus amigos, o que o irritava por não saber as origens dessa particularidade. De uma coisa ele estava seguro: o seu rapaz precisava de passar pela tropa para se fazer homem, como aconteceu na sua juventude com muitos. 

O pai do Joca está convencido da absoluta necessidade do regresso do serviço militar obrigatório, por considerar evidente a sua importância na cadeia de valores que se foram perdendo no nosso país. O seu retorno – diz ele – seria o ponto de partida para a reposição de um conjunto de fatores fundamentais ao nosso código de conduta, que estão afastados do dia-a-dia da nossa sociedade e que a juventude podia readquirir na instituição militar, nomeadamente no que concerne às suas obrigações para com a pátria e a família. E, embrenhado nestes pensamentos, lembrou-se que o seu Joca está na idade de ser convocado para o Dia da Defesa Nacional, que se comemora no dia seguinte, o que confirmou logo de seguida num Edital afixado na Junta de Freguesia da sua residência. E depressa correu para casa, a fim de dar a boa nova à mulher e ao filho. Joca reclamou contra a ideia do pai, invocando objeção de consciência, no que foi acompanhado pela mãe, mas de nada lhe valeu. 

A comparência no Dia da Defesa Nacional é um dever obrigatório para todos os cidadãos que cumpram dezoito anos de idade, a que ninguém se pode abster, a não ser por razões de saúde ou outras questões de força maior devidamente justificadas – gritou-lhe o pai. E logo fez saber que um filho seu nunca se eximirá ao cumprimento daquele dever, enquanto ele for vivo. A discussão prolongou-se durante o resto do dia, mesmo à mesa do jantar, com o pai a insistir no seu ponto de vista e Jocas e a mãe a defenderem opinião contrária. E o conflito só parou quando o pai foi para a cama, não sem antes ameaçar o filho que o acordaria com um balde de água pela cabeça abaixo se não estivesse acordado à hora devida.

Ainda faltava uma hora para o içar da bandeira nacional no quartel da Serra do Pilar quando um grupo de cerca de cem jovens – mais raparigas que rapazes – passou a porta de armas para participar no Dia da Defesa Nacional. Entre eles, estava um trio de rapazes que se apresentaram como habitantes de Vila D’Este, um bairro social problemático de Gaia. 

Os três amigos, Pedro, Rui e Mário, não passaram despercebidos a Joca, que escolheu um lugar estratégico de onde os não perdesse de vista, quando começou a palestra sobre a defesa nacional e o papel das forças armadas. O sorriso aberto do primeiro, o ar maroto do segundo e o aspeto descomplexado do terceiro interessavam-no muito mais do que aquilo que o oficial de dia tinha para lhes dizer, apesar de ele não ser nada de se deitar fora, como ouviu exclamar a uma das meninas. 

Na visita as instalações do quartel, que antecedeu o momento do repasto por volta do meio-dia no refeitório, Joca não se coibiu de se aproximar dos três rapazes de Vila D’Este, como se juntos formassem agora um quarteto de amigos, não sentindo qualquer desconforto por parte deles. Pedro, o sorridente, acolheu-o com gestos de alguma familiaridade, brindando-o com algumas graçolas sobre as miúdas que faziam parte da comitiva. Rui, o maroteiro, contava-lhe segredos ordinários ao ouvido, que o deixavam corado até às orelhas. E Mário, o descomplexado da silva, deu-lhe o braço por diversas vezes, enquanto procurava explicar-lhe para que servia cada apetrecho militar com que se confrontavam, chegando a dizer-lhe que as camaratas davam-lhe alguma tesão, por as camas estarem por cima uma das outras, como se estivem num bacanal. 

Quando o oficial de dia encaminhou os recrutas ocasionais de um dia para o próximo módulo de debate, que culminou com o preenchimento de um inquérito que visa conhecer melhor a juventude portuguesa, Joca dava graças ao seu pai por o ter forçado a participar naquela jornada inteiramente dedicada ao serviço militar. Ele estava completamente rendido, não ao quartel e aos tropas, mas às amizades que angariou, imaginando já uma forma de perpetuar estes momentos para além daquele dia de celebração da vida militar. E ainda antes do arriar da bandeira, convidou os seus três amigos para uma viagem de teleférico, quando saíssem dali, assumindo ele próprio as despesas inerentes. Pedro e Mário ainda esboçaram uma negativa, mas Rui demonstrou-se muito animado com a ideia, cochichando-lhes as razões da aceitação do convite. Pouco passava das cinco da tarde quando os quatro desceram a rua Rodrigues de Freitas em direção ao Jardim do Morro. 

À chegada ao teleférico, aguardaram que uma família de turistas ocupasse uma cabine do teleférico e só depois da partida desta é que Joca comprou as quatro passagens. Dentro da cabine, com Mário e Pedro lado-a-lado e os outros dois sentados de frente para eles, Rui sacou de uma faca que tinha enfiada na meia da sua perna esquerda e apontou-a ao pescoço de Joca. Ato contínuo, Mário gritou-lhe: “Passa para cá toda a guita, minha maricona!” Pedro, sempre sorrindo, complementou: “E o cartão multibanco!” Aterrado, Joca deu tudo o que tinha. Mas a coisa não ficou por ali. O último pedido saiu da boca de Rui: “E o código do cartão, chavala, qual é?” Mas, com os nervos, Joca não foi capaz de se lembrar do código. Insatisfeitos com aquele ataque de amnésia, os rapazes começaram a abanar a cabine do teleférico, deixando Joca aterrado de medo. 

Agarrado com toda a sua força à parte inferior do assento, deslizando sobre a esquerda e a direita à medida que a cabine era abanada, foi suplicando que parassem. 

Lá em baixo, os barcos deslizavam sobre o leito calmo do rio e a populaça passeava-se tranquilamente no empedrado da marginal, curiosamente apinhada de polícias. Ele gritava, gritava, mas de nada lhe valia, porque ninguém o ouvia. Subitamente, a porta da cabine abriu-se para um voo picado de Joca sobre as águas geladas do Douro, onde aterrou de cabeça. E foi aí que ele acordou, quase sem respiração, com a água fria que o pai despejou sobre a sua cabeça, ao mesmo tempo que gritava que era hora de se levantar e rumar até ao quartel da Serra do Pilar…