Este conto foi publicado originalmente no XYZ Magazine, número 29. O seu autor, António Breda Carvalho é hoje um escritor plenamente reconhecido, não chegando ainda aos 30 anos na época em que o conto foi publicado.
Antes de seguir as lides literárias A. Breda Carvalho andou pelo policiarismo, publicando, pelo menos, um problema em 1987 na seção Sábado Policiário do jornal Diário Popular.
Morte no cais
Autor: António Breda Carvalho
Naquela noite o cais era
tranquilidade e escuridão. Os barcos quase quietos, dormitavam despreocupados.
Só lá ao longe, no fim da doca, um candeeiro emanava uma fraca luz de presença.
Num certo ponto da doca, três homens de pé, tácitos, olhavam para o mar.
— Que raio! — exclamou baixinho um
dos homens.— Se ao menos pudéssemos fumar. — Chiu! — interrompeu outro. — Sinto
alguém aproximar-se.
Calaram-se.
Lentamente, um vulto ia emergindo
da escuridão. Deu mais alguns passos, e parou:
— Está aí alguém? — perguntou
sussurrando.
— Até as gaivotas voam… —
responderam do grupo.
— Se não lhes cortarem as asas —
concluiu o recém-chegado
— É ele! — concordaram no grupo.
— Trazes a mercadoria?
— Está no “Boa Esperança”.
— Então, vamos ao negócio.
Caminharam ao longo do cais.
Habituados à escuridão, as feições dos homens e os seus movimentos, tornavam-se
mais reconhecíveis.
— Eh!, alto aí, seu canalha! —
bradou um do grupo apontando uma arma ao visitante.— Você não é o “Sobe e
Desce”. Ele é coxo e você anda corretamente.
— E daí? — interrogou com
naturalidade o interpelado.— Foi substituído por mim. Não houve tempo para vos
avisar.
— Não me levas com essa. Conheço
todos os elementos da organização, e a tua cara é a primeira vez que a vejo.
Pensavas que estavas protegido pela escuridão, não era?
— Ora, não sejam loucos. Venham
ver…
Não acabou a frase. Alguém
aproximara-se pelas costas, e cravou-lhe um punhal.
— Que fazemos com este tipo?
— Espera. Está aqui um bote
amarrado ao cais. Deitamo-lo lá dentro e largamos o bote. Como a maré está a
vazar, levá-lo-á para o mar alto. Se alguém o encontrar nunca o relacionará com
este local.
— Apoiado. Mãos à obra.
— E a droga?
— Ainda acreditas nisso? Era uma
cilada para nos encurralar no pesqueiro.
E afastaram-se rápidos.
Caminho cauteloso pela doca. Tudo é
silêncio e escuridão. Apenas o soluçar das águas quebradas se fazem ouvir na
noite. Avança alguns metros e… silêncio. Um silêncio que começa a causar-me
preocupação.
Estou agora no local combinado. De
novo, silêncio, água e os espectros de alguns barcos pesqueiros ao longe,
balançando docemente, como encantados por não haver faina nessa noite.
Não. Não era só silêncio que eu
esperava encontrar. Isto é presságio de que algo correu mal. Sim, a esta hora,
três da manhã, com um silêncio perturbador, só duas coisa poderiam ter
acontecido: ou a operação ainda não se realizou, mas neste caso deveria
encontrar-se aqui o meu colega de ofício, o que não acontece, ou então, a
operação efetuou-se mais cedo e ele foi descoberto. Se isto aconteceu, nem
quero acreditar. Estava tudo planeado até ao mais ínfimo pormenor. De repente,
lá vem o último telex: o intermediário é coxo. Não, não acredito nesse
desfecho.
Continuo andando. Agora sinto a
água mais agitada, num dos lados da doca. Curioso, abeiro-me da margem do cais.
Está escuro. Num gesto rápido, acendo a lanterna.
Surpresa!!
Um bote dançava desgovernado. A
corda que servira de amarra, mergulhava verticalmente na água. Não perco tempo.
Procuro uma vara com a extremidade em foice, própria para puxar embarcações.
Sei que costuma haver algumas
nestes sítios. Puxo o bote de encontro ao cais. Salto para dentro e tento puxar
a corda que está presa ao fundo. Acendo novamente a lanterna. Um fogacho de luz
ilumina o interior do bote, ao mesmo tempo que solto uma exclamação. Reconheço
a letra do meu colega. Uma das tábuas dizia o seguinte: “os traficantes são
cadastrados. Os códigos são: 33A, 4B1 e Z24E.
Intuitivamente puxo com força a
corda, que vai cedendo a pouco e pouco. Tristemente, já adivinho o que vau
encontrar: o corpo do meu colega.
É verdade!
“Malditos”, pensei.
Descobri o golpe nas costas.
Compreendi tudo.
O meu amigo sentindo a morte
aproximar-se, e sabendo que o bote se afastava devido à baixa-mar, atou à corda
uma barra de chumbo que estava no bote, e utilizando a mesma corda, atou-a de
seguida à perna, e atirou-se à água. Servira de âncora.