O conto tem morte e violência, mas...
Uma janela aberta
Autor: Paulo
Olhou
as mãos. Um ligeiro tremor passou pelo seu corpo. Sentia medo, mas,
simultaneamente, também percebia o sentimento da coragem. Não podia hesitar.
Era importante que não falhasse.
De
longe chegava o rumor da trovoada. Nunca tremera ao som daquele fragor dos
deuses, mas uma sensação nova percorria-o. Aquele ruído da natureza causava-lhe
um ligeiro estremecimento. Ouvia a trovoada a aproximar-se, e ao mesmo tempo os
seus olhos percebiam que as nuvens negras, que cobriam o céu que antes estivera
azul, transformavam aquele início de tarde num crepúsculo antecipado do dia.
Não demoraria muito para a chuva começar a cair abundantemente.
Sentia
a pele a arrepiar-se. Estava hesitante. As mãos tremiam um pouco. Respirou
profundamente, enchendo os pulmões, como se esperasse ver o medo sair junto com
o ar expulso dos alvéolos pulmonares. Teria que recuperar a calma se não queria
falhar.
A
trovoada estava mais próxima. A chuva começava a cair em pingos temerosos e
grossos. As nuvens negras avançavam, roubando cada vez mais luminosidade ao
dia.
Pé
ante pé, sem fazer qualquer ruído, aproximou-se da porta do quarto. Sabia que
ela estava lá dentro. Vira-a entrar, deslizando silenciosa, pela janela que ficara
aberta. Não fora um sonho. Fora real. Ele vira com os seus próprios olhos. Fora
um retorno a pesadelos que lhe haviam atormentado o sono na sua meninice e que
se tornavam realidade.
Nas
mãos suadas segurava uma velha catana, que, rezavam as crónicas familiares, o
seu avô trouxera de Angola como recordação do tempo de tropa. Todos esses anos, ali
ficara, encostada a um canto, no barracão das arrumações, sem que ninguém se
servisse dela, mas mantendo-se sem um único ponto de ferrugem. Finalmente a
velha catana ia ser útil.
Estava
junto à porta. Um relâmpago rasgou o negro das nuvens. Quase em simultâneo
ouviu o forte ribombar de um trovão que o fez estremecer. A chuva perdeu o medo
e começou a cair violentamente, parecendo querer inundar toda a Terra.
Apurou
o ouvido, tentando ouvir qualquer ruído proveniente do quarto. A natureza não
ajudava. O som da chuva cobria todos os outros sons.
A
sua decisão estava tomada. Não podia recuar. Só poderia seguir em frente. Apertou
mais fortemente a catana, com a mão direita, erguendo-a à altura do peito.
Passou o polegar e o indicador da mão esquerda pelo afiado gume da lâmina,
sentindo o aço frio nos dedos aguados pela elevada humidade e pelo suor nascido
da ansiedade. Dentro de alguns instantes, ergueria a catana....e seria... a
morte. A cabeça para um lado, o resto do corpo para o outro, contorcendo-se na
agonia final. Repetiu várias vezes em pensamento: – Vou matá-la! Vou matá-la!
Vou matá-la!
Os
relâmpagos rasgavam agora o céu mesmo por cima da casa, fazendo as janelas
estremecer com o troar arrítmico dos trovões. A chuva caía em fortíssimas
bátegas, transformando estradas e caminhos térreos em transitórios rios.
Escutou
outra vez com atenção, tentando ouvir qualquer ruído dentro do quarto. Nada se
ouvia. Nenhum som. Olhou para a catana durante alguns segundos. Depois,
lentamente, levantou os olhos, apontando-os para a porta do quarto. Olhou a
porta como se pretendesse decorar cada um dos seus pormenores. Pensou na filha.
Felizmente ainda não regressara da escola. Não assistiria aos acontecimentos
que se avizinhavam. Evitaria assim muitas noites de pesadelos.
Sentiu
um nó na garganta. Seria medo?...
Não
conseguia interpretar as suas emoções, mas não deixaria que um imaginário
terror o paralisasse. Estava decidido e nada o faria voltar atrás. Teria que
resolver o assunto antes do regresso da filha.
Seria
rápido. Abriria a porta e matá-la-ia rapidamente. A catana estava bem afiada. Um
só golpe, desferido com alma, deveria bastar.
Os seus olhos brilhavam de excitação. Já não
lhe tremiam as mãos e o nó na garganta estava a desaparecer. Tinha chegado o
momento.
Lentamente,
muito lentamente, levantou a mão esquerda e envolveu com ela o manípulo do
fecho da porta. Encheu os pulmões de ar e expirou vagarosamente, ao mesmo tempo
que fechava os olhos.
Inspirou
novamente,...abriu os olhos..., rodou o fecho e empurrou a porta violentamente.
Saltou para dentro do quarto, olhou, e viu-a imediatamente. Levantou o braço
direito, num movimento rápido, e com uma forte catanada cortou-lhe a cabeça. O
resto do corpo ficou no chão, rastejando, contorcendo-se violentamente em
movimentos frenéticos, ziguezagueantes; como se procurasse encontrar a cabeça
que permanecia imóvel, em busca da vida que lhe fugia velozmente.
Levantou
novamente a catana. Os seus olhos brilhavam de ódio. Deu mais um...dois...
três....quatro golpes.
Parou
ofegante. Ela continuava a mexer, no chão, mas ele sabia da inutilidade dos
movimentos. Nada a afastaria da morte. A morte já a possuía.
Olhou
pela janela aberta por onde alguma chuva entrara. O temporal amainara e a
trovoada afastava-se. Não tardaria muito e o sol voltaria a brilhar. Ele veria
o Sol, mas ela...não. Ela nunca mais veria o sol, a chuva, as nuvens, a lua ou
as estrelas. Nunca mais veria nada. Nunca mais sentiria nada. Estava ali no
chão, morta, e finalmente parara os seus movimentos.
Ele
sorriu. Precisava limpar o quarto e eliminar todos os vestígios do que
ocorrera. A sua filha deveria estar quase a chegar. Deveria evitar que ela tomasse
conhecimento do que acontecera. Era necessário eliminar todos os vestígios. Ficaria
com medo, assustada, e ele não queria isso. Era uma menina tão bonita e meiga.
Não queria que ela se assustasse. Era a sua menina.
Olhou
a catana. Desferiu um golpe no ar e saiu do quarto, onde no chão ficara morta,
feita em pedaços, uma enorme cobra de cor preta que entrara pela janela.

Sem comentários:
Enviar um comentário