segunda-feira, 2 de março de 2026

A Página dos Enigmas nº 238

O Insólito e o Policiário estão muitas vezes ligados. Este conto ficou em 2º lugar, em 2005, no Concurso de Contos  da secção Policiário do jornal Público, na categoria de Conto Insólito.
O texto tem pequenas alterações em relação ao publicado originalmente, essencialmente eliminando pequenas gralhas.

O conto tem morte e violência, mas...


Uma janela aberta

Autor: Paulo

Olhou as mãos. Um ligeiro tremor passou pelo seu corpo. Sentia medo, mas, simultaneamente, também percebia o sentimento da coragem. Não podia hesitar. Era importante que não falhasse.

De longe chegava o rumor da trovoada. Nunca tremera ao som daquele fragor dos deuses, mas uma sensação nova percorria-o. Aquele ruído da natureza causava-lhe um ligeiro estremecimento. Ouvia a trovoada a aproximar-se, e ao mesmo tempo os seus olhos percebiam que as nuvens negras, que cobriam o céu que antes estivera azul, transformavam aquele início de tarde num crepúsculo antecipado do dia. Não demoraria muito para a chuva começar a cair abundantemente.

Sentia a pele a arrepiar-se. Estava hesitante. As mãos tremiam um pouco. Respirou profundamente, enchendo os pulmões, como se esperasse ver o medo sair junto com o ar expulso dos alvéolos pulmonares. Teria que recuperar a calma se não queria falhar.

A trovoada estava mais próxima. A chuva começava a cair em pingos temerosos e grossos. As nuvens negras avançavam, roubando cada vez mais luminosidade ao dia.

Pé ante pé, sem fazer qualquer ruído, aproximou-se da porta do quarto. Sabia que ela estava lá dentro. Vira-a entrar, deslizando silenciosa, pela janela que ficara aberta. Não fora um sonho. Fora real. Ele vira com os seus próprios olhos. Fora um retorno a pesadelos que lhe haviam atormentado o sono na sua meninice e que se tornavam realidade.

Nas mãos suadas segurava uma velha catana, que, rezavam as crónicas familiares, o seu avô trouxera de Angola como recordação do tempo de tropa. Todos esses anos, ali ficara, encostada a um canto, no barracão das arrumações, sem que ninguém se servisse dela, mas mantendo-se sem um único ponto de ferrugem. Finalmente a velha catana ia ser útil.

Estava junto à porta. Um relâmpago rasgou o negro das nuvens. Quase em simultâneo ouviu o forte ribombar de um trovão que o fez estremecer. A chuva perdeu o medo e começou a cair violentamente, parecendo querer inundar toda a Terra.

Apurou o ouvido, tentando ouvir qualquer ruído proveniente do quarto. A natureza não ajudava. O som da chuva cobria todos os outros sons.

A sua decisão estava tomada. Não podia recuar. Só poderia seguir em frente. Apertou mais fortemente a catana, com a mão direita, erguendo-a à altura do peito. Passou o polegar e o indicador da mão esquerda pelo afiado gume da lâmina, sentindo o aço frio nos dedos aguados pela elevada humidade e pelo suor nascido da ansiedade. Dentro de alguns instantes, ergueria a catana....e seria... a morte. A cabeça para um lado, o resto do corpo para o outro, contorcendo-se na agonia final. Repetiu várias vezes em pensamento: – Vou matá-la! Vou matá-la! Vou matá-la!

Os relâmpagos rasgavam agora o céu mesmo por cima da casa, fazendo as janelas estremecer com o troar arrítmico dos trovões. A chuva caía em fortíssimas bátegas, transformando estradas e caminhos térreos em transitórios rios.

Escutou outra vez com atenção, tentando ouvir qualquer ruído dentro do quarto. Nada se ouvia. Nenhum som. Olhou para a catana durante alguns segundos. Depois, lentamente, levantou os olhos, apontando-os para a porta do quarto. Olhou a porta como se pretendesse decorar cada um dos seus pormenores. Pensou na filha. Felizmente ainda não regressara da escola. Não assistiria aos acontecimentos que se avizinhavam. Evitaria assim muitas noites de pesadelos.

Sentiu um nó na garganta. Seria medo?...

Não conseguia interpretar as suas emoções, mas não deixaria que um imaginário terror o paralisasse. Estava decidido e nada o faria voltar atrás. Teria que resolver o assunto antes do regresso da filha.

Seria rápido. Abriria a porta e matá-la-ia rapidamente. A catana estava bem afiada. Um só golpe, desferido com alma, deveria bastar.

 Os seus olhos brilhavam de excitação. Já não lhe tremiam as mãos e o nó na garganta estava a desaparecer. Tinha chegado o momento.

Lentamente, muito lentamente, levantou a mão esquerda e envolveu com ela o manípulo do fecho da porta. Encheu os pulmões de ar e expirou vagarosamente, ao mesmo tempo que fechava os olhos.

Inspirou novamente,...abriu os olhos..., rodou o fecho e empurrou a porta violentamente. Saltou para dentro do quarto, olhou, e viu-a imediatamente. Levantou o braço direito, num movimento rápido, e com uma forte catanada cortou-lhe a cabeça. O resto do corpo ficou no chão, rastejando, contorcendo-se violentamente em movimentos frenéticos, ziguezagueantes; como se procurasse encontrar a cabeça que permanecia imóvel, em busca da vida que lhe fugia velozmente.

Levantou novamente a catana. Os seus olhos brilhavam de ódio. Deu mais um...dois... três....quatro golpes.

Parou ofegante. Ela continuava a mexer, no chão, mas ele sabia da inutilidade dos movimentos. Nada a afastaria da morte. A morte já a possuía.

Olhou pela janela aberta por onde alguma chuva entrara. O temporal amainara e a trovoada afastava-se. Não tardaria muito e o sol voltaria a brilhar. Ele veria o Sol, mas ela...não. Ela nunca mais veria o sol, a chuva, as nuvens, a lua ou as estrelas. Nunca mais veria nada. Nunca mais sentiria nada. Estava ali no chão, morta, e finalmente parara os seus movimentos.

Ele sorriu. Precisava limpar o quarto e eliminar todos os vestígios do que ocorrera. A sua filha deveria estar quase a chegar. Deveria evitar que ela tomasse conhecimento do que acontecera. Era necessário eliminar todos os vestígios. Ficaria com medo, assustada, e ele não queria isso. Era uma menina tão bonita e meiga. Não queria que ela se assustasse. Era a sua menina.

Olhou a catana. Desferiu um golpe no ar e saiu do quarto, onde no chão ficara morta, feita em pedaços, uma enorme cobra de cor preta que entrara pela janela.

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