Neste conto o Policial e o Fantástico andam em simultâneo. No Concurso de Contos de 2004, no jornal Público, este conto ficou em primeiro lugar na categoria Conto Fantástico.
Depois de M. Constantino ter escrito um conto em que ocorre um crime perfeito, também aqui temos um, só que entra nos meandros do fantástico.
Crime Perfeito
Autor: Paulo
Finalmente
cometera o crime perfeito. Jamais seria condenado pela morte do corpo que
estava à sua frente. O seu regozijo transbordava a paisagem em seu redor,
ultrapassava-a.
Como tudo fora
fácil e sem deixar pistas incriminatórias. O local que em criança lhe servira
como esconderijo nas brincadeiras, albergava agora a sua obra-prima.
Entrara no
velho celeiro, que ele tão bem conhecia, com as ideias muito claras sobre o que
pretendia fazer. Sabia que o tinham visto entrar, mas pouco se importara com
tal facto. Seria mais rápido que eles e depressa ficaria inatingível.
A velha trave
de madeira de nogueira, no teto, sempre o fascinara. Sempre o atraíra, como se
ele adivinhasse que um dia serviria para o ajudar a realizar a sua mais
completa obra. Era o cenário perfeito. Uma soberba pintura digna dos mais
famosos pintores clássicos. Um Rembrandt, um Goya ou um Rafael.
Só faltavam os
espectadores para admirarem a sua criação. Também esses não tardariam muito.
Eles tinham-no visto entrar com a corda. Provavelmente tinham adivinhado a
sua intenção. Mas chegariam tarde demais
para o impedir.
Entrara e
fechara a porta suavemente. No seu cérebro as ideias estavam nítidas. Iria
cometer o crime perfeito. Ninguém o poderia fazer sofrer as consequências de
provocar aquela morte.
Por debaixo da
trave colocara uma velha cadeira de carvalho.
Quantos anos
teria? Quantas vidas teriam passado por ela? A quantos amores assistira? Se a
cadeira pudesse falar quantas histórias contaria?
Passar a corda
sobre a trave fora uma brincadeira de crianças. As duas pontas ficaram
penduradas a balouçar num movimento pendular assincrónico, como o velho relógio
desacertado da torre da igreja.
Depois fora o
corpo em cima da mesa, amorfo, e sem vontade. Não oferecera resistência. Tivera
a sensação que mais lhe parecera uma libertação, tal a indiferença perante a
morte.
Como fora fácil
colocar a corda em torno do pescoço daquele corpo mole, abúlico.
Estava decidido
a ir até ao fim e nada o demoveria. Aproximava-se o clímax, a apoteose final.
Finalmente o
pontapé na cadeira e a fascinação que se seguira. No imediato ficara tão feliz,
que nada vira. Um clarão brilhante cegara-o por momentos. Apenas uma nuvem
vermelha toldando-lhe os olhos, e depois... tudo ficara claro. Uma inundação de
felicidade ao ver aquele corpo inútil a baloiçar. Aquele corpo ainda quente,
vazio de vida. A sua obra-prima.
Tudo correra
como planeado.
Começou a ouvir
vozes do outro lado da porta. Chamavam por ele. Era tarde demais. Olhou em
volta e viu que tudo estava fechado. Nem uma porta ou janela aberta. Tudo
estava perfeito. Já nada poderia ser alterado.
Tentavam
arrombar a porta que estremecia com os impactos, mas ele sabia que não cederia
à primeira. Era uma porta à moda antiga. Madeira de carvalho. Ia dar-lhe tempo
para desaparecer.
Parecia que as
pancadas na porta faziam balouçar o corpo mais rapidamente, como se um
resquício de vida ainda estivesse presente, e houvesse uma última possibilidade
de salvação. Não passava de sugestão. A morte conquistara aquele pedaço de
carne pendurado da corda.
Como se
enganavam se pensavam que o poderiam apanhar. A inocência deles metia-lhe pena.
Pareciam crianças. Não pensavam. Não imaginavam que seria impossível chegar até
ele. Matara e ficaria impune.
A porta
começava a ceder. Não demorariam muito tempo a atingir os seus intentos. Sairia
antes que eles entrassem.
Olhou mais uma
vez o corpo balouçante. A porta cedeu. Deu uma gargalhada, que ninguém ouviu, e
saiu atravessando a parede.
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