terça-feira, 2 de junho de 2026

A Página dos Enigmas nº 293

 


Neste conto o Policial e o Fantástico andam em simultâneo. No Concurso de Contos de 2004, no jornal Público, este conto ficou em primeiro lugar na categoria Conto Fantástico.

Depois de M. Constantino ter escrito um conto em que ocorre um crime perfeito, também aqui temos um, só que entra nos meandros do fantástico.


Crime Perfeito

Autor: Paulo


Finalmente cometera o crime perfeito. Jamais seria condenado pela morte do corpo que estava à sua frente. O seu regozijo transbordava a paisagem em seu redor, ultrapassava-a.

Como tudo fora fácil e sem deixar pistas incriminatórias. O local que em criança lhe servira como esconderijo nas brincadeiras, albergava agora a sua obra-prima.

Entrara no velho celeiro, que ele tão bem conhecia, com as ideias muito claras sobre o que pretendia fazer. Sabia que o tinham visto entrar, mas pouco se importara com tal facto. Seria mais rápido que eles e depressa ficaria inatingível.

A velha trave de madeira de nogueira, no teto, sempre o fascinara. Sempre o atraíra, como se ele adivinhasse que um dia serviria para o ajudar a realizar a sua mais completa obra. Era o cenário perfeito. Uma soberba pintura digna dos mais famosos pintores clássicos. Um Rembrandt, um Goya ou um Rafael.

Só faltavam os espectadores para admirarem a sua criação. Também esses não tardariam muito. Eles tinham-no visto entrar com a corda. Provavelmente tinham adivinhado a sua  intenção. Mas chegariam tarde demais para o impedir.

Entrara e fechara a porta suavemente. No seu cérebro as ideias estavam nítidas. Iria cometer o crime perfeito. Ninguém o poderia fazer sofrer as consequências de provocar aquela morte.

Por debaixo da trave colocara uma velha cadeira de carvalho.

Quantos anos teria? Quantas vidas teriam passado por ela? A quantos amores assistira? Se a cadeira pudesse falar quantas histórias contaria?

Passar a corda sobre a trave fora uma brincadeira de crianças. As duas pontas ficaram penduradas a balouçar num movimento pendular assincrónico, como o velho relógio desacertado da torre da igreja.

Depois fora o corpo em cima da mesa, amorfo, e sem vontade. Não oferecera resistência. Tivera a sensação que mais lhe parecera uma libertação, tal a indiferença perante a morte.

Como fora fácil colocar a corda em torno do pescoço daquele corpo mole, abúlico.

Estava decidido a ir até ao fim e nada o demoveria. Aproximava-se o clímax, a apoteose final.

Finalmente o pontapé na cadeira e a fascinação que se seguira. No imediato ficara tão feliz, que nada vira. Um clarão brilhante cegara-o por momentos. Apenas uma nuvem vermelha toldando-lhe os olhos, e depois... tudo ficara claro. Uma inundação de felicidade ao ver aquele corpo inútil a baloiçar. Aquele corpo ainda quente, vazio de vida. A sua obra-prima.

Tudo correra como planeado.

Começou a ouvir vozes do outro lado da porta. Chamavam por ele. Era tarde demais. Olhou em volta e viu que tudo estava fechado. Nem uma porta ou janela aberta. Tudo estava perfeito. Já nada poderia ser alterado.

Tentavam arrombar a porta que estremecia com os impactos, mas ele sabia que não cederia à primeira. Era uma porta à moda antiga. Madeira de carvalho. Ia dar-lhe tempo para desaparecer.

Parecia que as pancadas na porta faziam balouçar o corpo mais rapidamente, como se um resquício de vida ainda estivesse presente, e houvesse uma última possibilidade de salvação. Não passava de sugestão. A morte conquistara aquele pedaço de carne pendurado da corda.

Como se enganavam se pensavam que o poderiam apanhar. A inocência deles metia-lhe pena. Pareciam crianças. Não pensavam. Não imaginavam que seria impossível chegar até ele. Matara e ficaria impune.

A porta começava a ceder. Não demorariam muito tempo a atingir os seus intentos. Sairia antes que eles entrassem.

Olhou mais uma vez o corpo balouçante. A porta cedeu. Deu uma gargalhada, que ninguém ouviu, e saiu atravessando a parede.

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