sábado, 2 de maio de 2026

A Página dos Enigmas nº 276

 


Abrótea iniciou-se no mundo do policiário há muitos anos. Além de ir respondendo a problemas policiários e escrevendo alguns, também se dedicou à escrita de contos.

Foi autor do boletim Crimes e Passatempos onde publicou alguns dos seus escritos.

Este conto foi publicado no blogue Local do Crime, replicando a publicação jornal Audiência - Grande Porto.


O aluguer

Autor: Abrótea


Sabia que isto mais tarde ou mais cedo tinha de acontecer, a casa nem sequer era minha, o sogro é que a pagava, e nesse assunto nem eu podia abrir a boca e se piasse, (as vezes com um bom vinho de Pias ainda chegava lá) passava a noite no barraco de praia. Duas semanas para retirar a tralha, duas apenas. Como não era “biolento”, talvez lento mas não chegava a lentinho, decidi começar a procurar de imediato o meu palacete. Começar ou recomeçar do princípio até que não é difícil, o pior é apanhar com cada uma que até parece anedota… e foi, aconteceu, acontece a muito boa gente. Com a trouxa às costas lá saí de casa, uma trouxa “bem piquena”, ainda não podia levar muita coisa, o resto ficava para mais tarde, e se quisessem mandar fora, menos trabalho eu tinha, e assim ainda podia dormir nos braços da Luísa Tody, para nos dias seguintes recomeçar a procura, o que só acontecia depois do horário laboral. Entrei num café, uma imperial, enquanto fingia procurar moedas ou o porta-moedas, (na altura bolso roto), pedi desculpas e bebi a fresquinha na mesma, depois polidamente pedi o jornal da terra. Percorri a página dos anúncios só para verificar se havia algo de novo. Peguei no ”telelé”, (como sempre teso de saldo como eu) e a senhora, dona da loja, ao reparar, muito atenciosa emprestou-me o dela. Disse-lhe apenas por descargo de consciência que andava a procurar um quartinho, nem que fosse um vão de escadas. Ficou marcada uma entrevista para o dia seguinte, disse que apenas podia chegar depois das 19 horas, e na hora aprazada lá fui eu. (quase a caminho de Viseu, mas era em Setúbal ou arredores, ou ainda um pouco mais longe) A morada, essa, um escritório! E eu a pensar que já tinha quarto, ora bolas. 

Com tanta gente lá dentro até fiquei assustado, quase que apetecia dar meia volta e… ouvi chamar o meu nome, aguentei-me à bronca. Uma menina, seio farto, maior que uma elefanta, (ainda mais vontade de fugir tive) foi essa mesmo que tinha chamado, gritado o meu nome, empurrou-me para dentro do escritório onde em cima da secretária amontoavam-se folhas, resmas de folhas. Também já tinha comigo todos os documentos pedidos, menos dois. Entreguei recibos de vencimento, fotocópias do CU, ai, desculpem cartão de cidadão, NIB e NIF, faltava água e luz, mas isso o sogro pagava, não podia entregar. Para mim a “Ursa” já me assustava e com tudo isto ainda mais, até parecia estar em qualquer repartição de finanças, num banco, ou num assalto… aos bolsos meus!!! A “Baleia” começa a debitar palavras, e a mostrar o contrato, como não tinha as lentes de contacto, nem os contactos no velho “telelé”, nem sequer as lunetas, pedi-lhe para traduzir tudo por miúdos. Parecia aquelas velhas “IBM” a debitar letras: ponto 1- isto é um velho T0 e a renda é de 375 euro mês; ponto 2 - obrigatório pagar três meses de renda; ponto 3 - fico com as fotocópias dos seus documentos (caraças, a “Javali fêmea” tinha fotocopiadora); ponto 4 - o doutor Leve Twitter, que é o dono, irá analisar todos estes documentos, não só o seu como deve verificar. Terminou com isto por agora é tudo, e é o que se pode arranjar, depois ”telofone-me”. Estava quase a pensar alto, mas parei, uma bolachada daquela Fera mandava-me janela fora ao outro lado da rua. Só pedi, quando tiver alguma notícia telefone-me a senhora, tenho de trocar o cartão, os sogros não gostam de mim e este ainda tem os números… Dois dias passados e recebo uma chamada da “T-Rex”, falei o que antes tinha dito, apenas depois do meu horário laboral. Sim senhor pode vir, temos notícias. Eu esfregava as mãos de contente, afinal já não ia para debaixo da ponte. Chegado ao escritório, desta vez nem esperei muito, estava vazio, vazio não, a “Godzilla” estava lá. Cumprimentei a “Dona” educadamente e estendi a mão para receber a chave. Sente-se – falou ela com aquele vozeirão que acordava um quarteirão inteiro – o doutor analisou os seus documentos, e como ele é um homem bom, até tem pena de si tendo em conta o seu vencimento… Já estava com vontade de dar saltos, vocês sabem como é, mas dançar a (à) lambada com aquilo nunca na vida, eu é que perdia a minha. Relaxei e naquela calma que prenuncia algo nunca bom, pedi: pode continuar minha boa senhora. O senhor doutor gosta mesmo de si, o senhor trabalha, sabe o que faz no seu emprego, mas se pagar os três meses como o senhor vai comer? Foi o fósforo em cima da gasolina, muito calmo e ainda sentado, com o contrato perto de mim, agarrei-o e rasguei e só então disse: diga ao seu chefe que durante o dia eu trabalho, nas HORAS LIVRES ASSALTO VELHOS COMO ELE, E MULTIBANCOS!


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