Este conto foi o vencedor da 4 ª edição do Concurso Literário Professora Rosinda de Oliveira, decorrido em 2022.
Ouvem-se tiros, uma ameaça de morte, mas... por isso o conto fica no reino do insólito.
As dimensões do medo
Autor: Paulo
Passara
mais de uma hora desde que se sentara. O medo e o terror dominavam-no. Pessoas que
não conhecia perguntavam e respondiam por ele. O suor envolvia-o. A escuridão
cercava-o. Vultos sem rosto em seu redor. Sentados. Como ele. Mexeu-se. Assustado.
O que fazia naquele lugar? Não recordava como ali chegara. Tentou levantar-se.
Um dos desconhecidos gritou. À sua frente,
– quieto!
Deixou-se
cair na cadeira. Espantado. Aterrorizado. O homem apontava-lhe uma arma. Voltou
a gritar,
– quieto! não
volto a repetir!
Ficou
com os olhos escancarados. Presos na arma. Porquê? O que estava a suceder?
– confessa
que foste tu! confessa minúsculo verme!
O
espanto e o medo misturavam-se. Uma sensação de vazio subiu do estômago. Enovelou-se
na garganta. Não conseguia falar. Só a vigília húmida do medo o mantinha
consciente,
– foste tu
que os mataste, não é verdade? assume o teu crime!
Transpirava
cada vez mais. Aumentava o desconforto da roupa humidificada na pele quente,
– quieto!
Já
nem os olhos ousava mexer. Pupilas paradas no espanto e no medo. Só podia ser
um sonho. Um pesadelo. Meteu a língua entre os dentes. Apertou. Apertou. Apertou.
Começou a doer-lhe. Percebeu que não era um sonho. Era tudo real. Estava a ser
acusado de um crime que não cometera,
– sei que
foste tu! matares uma mulher e duas crianças a sangue frio! assassino!
Sabia
finalmente qual fora o crime. Descobrira de que o acusavam. Conseguiu gritar,
– não fui
eu! não fui eu! não fui eu!
Ouviu
vozes de irritação enfadada,
– chiu! calado!
As
vozes vinham de todos os lados. Afundou-se um pouco mais na cadeira. Que lhe
iriam fazer? Seria morto? Começou a chorar. Primeiro numa lágrima temerosa. Depois
num convulsivo choro silencioso. Nada fizera para merecer tal castigo,
– não chores!
és um cobarde! não vou sentir pena! tal como tu também não sentiste quando os
mataste!
Tinha
medo. Não queria morrer. Viu o homem apontar-lhe a arma ao coração. O dedo
curvar-se sobre o gatilho. Numa lentidão agonizante a curvar-se. A curvar-se. A
curvar-se. Ouviu a detonação. Não sentiu nada. Expirou o ar que os seus pulmões
continham, O homem falhara. Iria disparar novamente? Escapara uma vez. Sobreviveria
da próxima? O homem virou-lhe as costas. Afastava-se com a arma pendendo-lhe da
mão. Alguém acendeu as luzes. Olhou em redor. Viu os vultos tomarem formas bem
definidas. Levantavam-se das cadeiras onde estavam sentados. Terminara a sessão
de cinema em três dimensões.

Sem comentários:
Enviar um comentário