quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A Página dos Enigmas nº 345

 


Este conto foi o vencedor da 4 ª edição do Concurso Literário Professora Rosinda de Oliveira, decorrido em 2022. 

Ouvem-se tiros, uma ameaça de morte, mas... por isso o conto fica no reino do insólito.


As dimensões do medo

Autor: Paulo


Passara mais de uma hora desde que se sentara. O medo e o terror dominavam-no. Pessoas que não conhecia perguntavam e respondiam por ele. O suor envolvia-o. A escuridão cercava-o. Vultos sem rosto em seu redor. Sentados. Como ele. Mexeu-se. Assustado. O que fazia naquele lugar? Não recordava como ali chegara. Tentou levantar-se. Um dos desconhecidos gritou. À sua frente,

– quieto!­

Deixou-se cair na cadeira. Espantado. Aterrorizado. O homem apontava-lhe uma arma. Voltou a gritar,

­– quieto! não volto a repetir!

Ficou com os olhos escancarados. Presos na arma. Porquê? O que estava a suceder?

­– confessa que foste tu!­ confessa minúsculo verme!

O espanto e o medo misturavam-se. Uma sensação de vazio subiu do estômago. Enovelou-se na garganta. Não conseguia falar. Só a vigília húmida do medo o mantinha consciente,

– foste tu que os mataste, não é verdade? assume o teu crime!

Transpirava cada vez mais. Aumentava o desconforto da roupa humidificada na pele quente,

 – quieto!

Já nem os olhos ousava mexer. Pupilas paradas no espanto e no medo. Só podia ser um sonho. Um pesadelo. Meteu a língua entre os dentes. Apertou. Apertou. Apertou. Começou a doer-lhe. Percebeu que não era um sonho. Era tudo real. Estava a ser acusado de um crime que não cometera,

– sei que foste tu! matares uma mulher e duas crianças a sangue frio! assassino!

Sabia finalmente qual fora o crime. Descobrira de que o acusavam. Conseguiu gritar,

– não fui eu! não fui eu! não fui eu!

Ouviu vozes de irritação enfadada,

– chiu! calado!

As vozes vinham de todos os lados. Afundou-se um pouco mais na cadeira. Que lhe iriam fazer? Seria morto? Começou a chorar. Primeiro numa lágrima temerosa. Depois num convulsivo choro silencioso. Nada fizera para merecer tal castigo,

– não chores! és um cobarde! não vou sentir pena! tal como tu também não sentiste quando os mataste!

Tinha medo. Não queria morrer. Viu o homem apontar-lhe a arma ao coração. O dedo curvar-se sobre o gatilho. Numa lentidão agonizante a curvar-se. A curvar-se. A curvar-se. Ouviu a detonação. Não sentiu nada. Expirou o ar que os seus pulmões continham, O homem falhara. Iria disparar novamente? Escapara uma vez. Sobreviveria da próxima? O homem virou-lhe as costas. Afastava-se com a arma pendendo-lhe da mão. Alguém acendeu as luzes. Olhou em redor. Viu os vultos tomarem formas bem definidas. Levantavam-se das cadeiras onde estavam sentados. Terminara a sessão de cinema em três dimensões.

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