sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A Página dos Enigmas nº 364

 


Este conto ganhou uma Menção Honrosa no Torneio Um caso Policial em Gaia, realizado em 2017 em O Desafio dos Enigmas do jornal Audência-Gande Porto. O seu autor é Daniel Maia um estreante na escrita de contos policiários. 

O seu autor é de Santa Marinha


Viagem de teleférico

Autor Daniel Maia


O Joca foi sempre um menino da mamã. E com ela foi ganhando gostos, hábitos e hobbies pouco próprios de um macho em desenvolvimento. Nunca jogou à bola com os outros rapazes na rua e jamais travou qualquer discussão com estes que acabasse por degenerar em pancadaria. As bonecas eram a sua perdição, passando horas sem fim fechado em casa a brincar às casinhas, às mamãs e aos bebés. O pai foi tolerando tudo isto a muito custo, sempre na esperança de que o rapaz mudasse com a idade. Mas isso nunca aconteceu, apesar de várias insistências em levá-lo ao futebol e ao cinema ou a ver corridas de fórmula 1 ou de motocrosse. Nada. O que o Jocas queria mesmo era ficar em casa, agarrado às bonecas ou a ajudar a mãe nas lides domésticas. Enquanto isso, o tempo ia passando e o rapaz nunca deu a conhecer namorada ou amiga especial. 

A única pessoa fora do seu círculo familiar, mais ou menos da sua idade, com quem Joca se deu durante algum tempo foi um colega de escola, o Tó Zé, sua visita frequente de casa, com quem passava tardes inteiras no quarto, após as aulas. Os livros de matemática e de ciências naturais eram o pretexto para longas jornadas a dois, mas as notas naquelas duas disciplinas eram sempre pouco mais do que miseráveis, como em todas as outras, aliás, exceto educação visual. Sem grandes notas, começou a ser muito difícil encontrar um curso que lhe fosse acessível. 

Até que, aos dezoito anos, Jocas decidiu que queria ser chef de cozinha, irritando solenemente seu pai, que sempre sonhou uma profissão para o filho ligada ao direito, advogado como ele, ou jurista, juiz ou até mesmo polícia de investigação criminal. Tudo menos uma procissão de fêmea! 

Aquela decisão do Joca provocou uma enorme discussão lá por casa, com o pai a ameaçar o filho de acabar de vez com as mesadas e com a autorização de saídas noturnas, que passaram a ser mais constantes, levando o rapaz por empréstimo algumas das toilletes da mamã para alegadas cedências a meninas filhas de famílias menos abonadas. No calor da discussão, o pai do Jocas disse que o filho já foi visto algumas vezes pelos lados da Lavandeira, junto ao Estádio Municipal, local onde não se conhece a existência de casas de animação, pedindo, por isso, explicação para tal facto. A explicação do rapaz, longe de acalmar os ânimos do progenitor, atiçou ainda mais a sua fúria, desvendando, por fim, que um colega seu o terá visto por lá, de calças justas, saltos altos e muito bamboleante, na companhia de gente indefinível quanto ao género. Escusado será dizer que a mãe do Joca tomou a defesa do seu adorado filho, defendendo que tudo não passava de má-língua de gente intriguista que apenas queria causar mal-estar no seio da família. Muito sensível e dedicado à mamã, o rapaz desatou num choro compulsivo que acabou por comover o próprio pai, que chegou a admitir haver alguma confusão quanto à pessoa que foi vista a fazer trottoir na Lavandeira, por ser uma zona mal iluminada e seu filho ter uma configuração física muito comum à rapaziada da sua idade. Só que tinha gestos e reações muito pouco comuns à esmagadora maioria dos filhos dos seus amigos, o que o irritava por não saber as origens dessa particularidade. De uma coisa ele estava seguro: o seu rapaz precisava de passar pela tropa para se fazer homem, como aconteceu na sua juventude com muitos. 

O pai do Joca está convencido da absoluta necessidade do regresso do serviço militar obrigatório, por considerar evidente a sua importância na cadeia de valores que se foram perdendo no nosso país. O seu retorno – diz ele – seria o ponto de partida para a reposição de um conjunto de fatores fundamentais ao nosso código de conduta, que estão afastados do dia-a-dia da nossa sociedade e que a juventude podia readquirir na instituição militar, nomeadamente no que concerne às suas obrigações para com a pátria e a família. E, embrenhado nestes pensamentos, lembrou-se que o seu Joca está na idade de ser convocado para o Dia da Defesa Nacional, que se comemora no dia seguinte, o que confirmou logo de seguida num Edital afixado na Junta de Freguesia da sua residência. E depressa correu para casa, a fim de dar a boa nova à mulher e ao filho. Joca reclamou contra a ideia do pai, invocando objeção de consciência, no que foi acompanhado pela mãe, mas de nada lhe valeu. 

A comparência no Dia da Defesa Nacional é um dever obrigatório para todos os cidadãos que cumpram dezoito anos de idade, a que ninguém se pode abster, a não ser por razões de saúde ou outras questões de força maior devidamente justificadas – gritou-lhe o pai. E logo fez saber que um filho seu nunca se eximirá ao cumprimento daquele dever, enquanto ele for vivo. A discussão prolongou-se durante o resto do dia, mesmo à mesa do jantar, com o pai a insistir no seu ponto de vista e Jocas e a mãe a defenderem opinião contrária. E o conflito só parou quando o pai foi para a cama, não sem antes ameaçar o filho que o acordaria com um balde de água pela cabeça abaixo se não estivesse acordado à hora devida.

Ainda faltava uma hora para o içar da bandeira nacional no quartel da Serra do Pilar quando um grupo de cerca de cem jovens – mais raparigas que rapazes – passou a porta de armas para participar no Dia da Defesa Nacional. Entre eles, estava um trio de rapazes que se apresentaram como habitantes de Vila D’Este, um bairro social problemático de Gaia. 

Os três amigos, Pedro, Rui e Mário, não passaram despercebidos a Joca, que escolheu um lugar estratégico de onde os não perdesse de vista, quando começou a palestra sobre a defesa nacional e o papel das forças armadas. O sorriso aberto do primeiro, o ar maroto do segundo e o aspeto descomplexado do terceiro interessavam-no muito mais do que aquilo que o oficial de dia tinha para lhes dizer, apesar de ele não ser nada de se deitar fora, como ouviu exclamar a uma das meninas. 

Na visita as instalações do quartel, que antecedeu o momento do repasto por volta do meio-dia no refeitório, Joca não se coibiu de se aproximar dos três rapazes de Vila D’Este, como se juntos formassem agora um quarteto de amigos, não sentindo qualquer desconforto por parte deles. Pedro, o sorridente, acolheu-o com gestos de alguma familiaridade, brindando-o com algumas graçolas sobre as miúdas que faziam parte da comitiva. Rui, o maroteiro, contava-lhe segredos ordinários ao ouvido, que o deixavam corado até às orelhas. E Mário, o descomplexado da silva, deu-lhe o braço por diversas vezes, enquanto procurava explicar-lhe para que servia cada apetrecho militar com que se confrontavam, chegando a dizer-lhe que as camaratas davam-lhe alguma tesão, por as camas estarem por cima uma das outras, como se estivem num bacanal. 

Quando o oficial de dia encaminhou os recrutas ocasionais de um dia para o próximo módulo de debate, que culminou com o preenchimento de um inquérito que visa conhecer melhor a juventude portuguesa, Joca dava graças ao seu pai por o ter forçado a participar naquela jornada inteiramente dedicada ao serviço militar. Ele estava completamente rendido, não ao quartel e aos tropas, mas às amizades que angariou, imaginando já uma forma de perpetuar estes momentos para além daquele dia de celebração da vida militar. E ainda antes do arriar da bandeira, convidou os seus três amigos para uma viagem de teleférico, quando saíssem dali, assumindo ele próprio as despesas inerentes. Pedro e Mário ainda esboçaram uma negativa, mas Rui demonstrou-se muito animado com a ideia, cochichando-lhes as razões da aceitação do convite. Pouco passava das cinco da tarde quando os quatro desceram a rua Rodrigues de Freitas em direção ao Jardim do Morro. 

À chegada ao teleférico, aguardaram que uma família de turistas ocupasse uma cabine do teleférico e só depois da partida desta é que Joca comprou as quatro passagens. Dentro da cabine, com Mário e Pedro lado-a-lado e os outros dois sentados de frente para eles, Rui sacou de uma faca que tinha enfiada na meia da sua perna esquerda e apontou-a ao pescoço de Joca. Ato contínuo, Mário gritou-lhe: “Passa para cá toda a guita, minha maricona!” Pedro, sempre sorrindo, complementou: “E o cartão multibanco!” Aterrado, Joca deu tudo o que tinha. Mas a coisa não ficou por ali. O último pedido saiu da boca de Rui: “E o código do cartão, chavala, qual é?” Mas, com os nervos, Joca não foi capaz de se lembrar do código. Insatisfeitos com aquele ataque de amnésia, os rapazes começaram a abanar a cabine do teleférico, deixando Joca aterrado de medo. 

Agarrado com toda a sua força à parte inferior do assento, deslizando sobre a esquerda e a direita à medida que a cabine era abanada, foi suplicando que parassem. 

Lá em baixo, os barcos deslizavam sobre o leito calmo do rio e a populaça passeava-se tranquilamente no empedrado da marginal, curiosamente apinhada de polícias. Ele gritava, gritava, mas de nada lhe valia, porque ninguém o ouvia. Subitamente, a porta da cabine abriu-se para um voo picado de Joca sobre as águas geladas do Douro, onde aterrou de cabeça. E foi aí que ele acordou, quase sem respiração, com a água fria que o pai despejou sobre a sua cabeça, ao mesmo tempo que gritava que era hora de se levantar e rumar até ao quartel da Serra do Pilar…


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