segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A Página dos Enigmas nº 383

 


O conto é do Detective Agrafa Dor, desconhecendo-se quem se encontra por detrás deste pseudónimo. O conto foi concorrente na edição de 2020-2021 ao  concurso Um Caso Policial em Gaia, dinamizado pela secção O Desafio dos Enigmas do jornal Audiência-Grande Porto.


Apenas um sonho

Autor: Detective Agrafa Dor


Foi andando até ao centro histórico de Gaia, onde residia. Meteu a chave à porta e entrou para a sala de estar. Olhou com aborrecimento a desarrumação generalizada, ali, e  nas  outras  divisões. A  empregada  com  o  receio  justificado  de  ele  deixar  de  pagar  os ordenados despedira-se, quando num pico da crise, uns anos atrás, ele fora engrossar as fileiras da multidão desempregada.

Ouvira  dizer a  alguns  camaradas que  na  conjetura  atual  a  agricultura é  que estava  a dar, atraindo para  a  atividade  produtiva uma  faixa considerável  da  força  de trabalho. A  mecanização  do  trabalho  rural,  já  lhe  retira  parte  da  dureza  que  lhe  era intrínseca.

As lides agrícolas e a sua característica sazonal começaram a proporcionar-lhe o recebimento de alguns cobres, providenciais para assegurar a sobrevivência.

Fez entretanto formação profissional em novas atividades, ficando apto para várias   funções, tendo possibilidades de trabalhar num  leque de vastas áreas económicas.

Explorara a adversa informática, tudo  o  que antes era  difuso  e  enevoado, recortava-se agora com nitidez. Passara o “cabo” da ótica do utilizador. Outras tarefas de que apenas conhecia alguma coisa, foram devidamente estudadas.

Trabalhos  temporários,  no  setor  industrial, foram  surgindo,  ali  e  acolá  ao  sabor da lei da oferta e da procura, excelentes para adestramento e experiência, da arte laboral.

De  anúncio  em  anúncio,  de  entrevista  em  entrevista  e  corajosas  candidaturas espontâneas,  no  topo da  procura  de  emprego,  não  houve  um  momento  de  desânimo, nenhuma retirada estratégica, porfiou-se um exemplar estoicismo.

Finalmente, aparecera uma fábrica a precisar de pessoal.

Recebera o primeiro ordenado.

A realidade iria captar, lentamente, novas facetas favoráveis à concretização do sonho: viver em paz.

Dedicara-se   ao   trabalho,   dia   após   dia,   e   a   sua   prestação   era   rentável,   a coordenação  de  tarefas  entre  grupos,  eficaz  e  com  uma  dinâmica  própria  que  se  auto renovava  de  acordo  com  as  vicissitudes  do  processo  de  produção,  criava a mais-valia diária  digna  de apreço e  consideração.  Estava  a  pensar  deste  modo,  quando  resolveu abrir ao acaso o livro de bolso de temática policiária, que trazia quase sempre consigo e foi lendo:

“Os estampidos soaram do lado direito, porém o Mago da Finança, de visita ao país, fora atingido pelo flanco esquerdo. Seriam dois atiradores, um com arma normal a fazer barulho, manobra de distração, e outro de arma com silenciador, a matar? O hotel foi rapidamente cercado pela polícia, as entradas e saídas encerradas, de maneira que ninguém saísse ou entrasse. Foi seguida a trajetória das balas e a origem dos  estrondos.   Os   hóspedes   foram   conduzidos  para   uma   sala   de   reuniões. O comissário,  estava de  folga, mas  resolvera entrar  de serviço,  e tomar  as  medidas necessárias, para  identificar  o  autor  do  crime  e  o seu  cúmplice.  Certificara-se  que os hóspedes estavam  todos  presentes.  Foram  de  imediato  revistados.  Duas senhoras sentiram-se mal e precisaram de cuidados. Os socorristas trataram-nas bem.

O motivo seria alguma obscura tramoia de espionagem? Gerou-se a confusão entre os presentes apanhados de surpresa e a verem o fim de semana estragado.”

Uma buzinadela de automóvel fê-lo levantar a cabeça, fechar o livro e sair da frente do veículo. Não se justificava que tendo ele tempo para ler em casa, na biblioteca ou no café, o fizesse enquanto andava na rua, arriscando-se a ser atropelado.

Lembrou-se da renda, água e luz para pagar. Saciada a sede numa pausa rápida no bar, foi ao banco levantar dinheiro. Pela quantidade de clientes, e o anseio estampado nos rostos, via-se prontamente que era fim do mês.

Andava algo, um zum-zum pouco percetível e admoestador no ar. Ainda estava a contar o dinheiro, quando um grupo de assaltantes entrou de armas na mão. Caramba! (Há dias em que não se pode sair de casa).

O ambiente ficou dramático e tenso. Uma pequena distração é a morte do artista. Neste ínterim, um dos clientes recebe uma chamada, e o toque estridente de sirene, que escolhera para o telemóvel, imprevisto, desconcentrou e baralhou os bandoleiros. Entreolharam-se espantados e fugiram em debandada.

É neste momento que sente uma sacudidela no ombro. E ouve um dos porteiros dizer-lhe:

─ Acorde. O filme já acabou. O cinema vai fechar.

Sem comentários:

Enviar um comentário