Série - Charlie Chan
O conhecimento do leitor com Charlie
Chan, personagem criado por Earl Derr Biggers, é travado em A casa sem chaves, onde, no sétimo capítulo,
o então sargento-detetive da polícia de Honolulu entra em ação.
Nesta sua primeira atuação quase que
passa despercebido, embora acabe por ter alguma intervenção na resolução do
caso. Aliás, só a partir do seu terceiro caso, Atrás da cortina, Charlie Chan se pode considerar como o personagem
central dos casos que resolve.
Charlie Chan considera-se a si
próprio um estudioso da natureza humana. Acha que o importante é conhecer os
comportamentos humanos, e que esse é o caminho certo para descobrir os
criminosos, porque por detrás de um crime estão sempre sentimentos humanos,
chegando mesmo a desdenhar da ciência como auxiliar da descoberta do criminoso.
Apesar dessa sua opinião, é um especialista em impressões digitais, o que
indica alguma contradição entre aquilo que pensa e o que faz.
Charlie Chan, antigo mordomo da
família Phillimore, é um chinês baixo, gorducho e de ombros largos,
perfeitamente adaptado aos hábitos ocidentais, situação que por vezes lamenta.
Aparenta uma falsa subserviência em relação aos indivíduos de pele branca, no
entanto, perante qualquer japonês, seja um conhecimento casual, ou o seu
ajudante Kashimo, não tem qualquer relutância em manifestar a sua opinião de
menosprezo das capacidades e das qualidades humanas e intelectuais dos
japoneses, mostrando uma atitude racista.
Tem uma família numerosa. Quando
tomamos conhecimento com ele em A casa
sem chaves tem nove filhos. Quando resolve o caso O camelo preto dá a informação que já tem dez filhos, e o décimo
primeiro nasce enquanto ele descobre o assassino em Atrás da cortina. Gostaria de ser pai de apenas rapazes e assume
mesmo ter sido para ele um desapontamento o nascimento das suas três filhas.
Quanto ao nome dos filhos ele não fornece a informação completa: Henry Chan é o
filho mais velho e o mais novo chama-se Barry Chan, em homenagem a uma das
personagens com quem se cruzou enquanto resolvia o caso que ficou conhecido por
Atrás da cortina. A filha mais velha
chama-se Rose, a do meio Evelyn e a mais nova Anne.
A sua mulher é chinesa e
encontraram-se pela primeira vez numa praia. Quanto à restante família, sabe-se
que tem um primo em Honolulu, Willie Chan, capitão de uma equipa de basebol,
campeã do Pacífico, e vários familiares em S. Francisco, cidade aonde tem que
se deslocar, durante o caso de O papagaio
Chinês, e onde se encontra com Kee Lim, seu primo.
Em relação a bens materiais sabe-se
que tem um Ford e que a sua residência é no declive de Punchbowl Hill. Sobre a
sua casa não existe muita informação. Do teto da sala pendiam lanternas de cor
ouro pálido, e nesse mesmo compartimento havia um quadro pintado em seda, com
um pássaro num ramo de macieira.
Nos relatos dos seus primeiros casos,
Charlie Chan gosta muito de falar de si, dando alguma informação sobre ele
próprio e os que o rodeiam. Essa sua característica vai-o abandonando com o
passar do tempo, também na medida em que vai sendo mais interveniente na
resolução dos crimes que lhe surgem pela frente. Se em A casa
sem chaves não passa de um simples ajudante
do capitão Hallet, chefe dos detetives,
a sua intervenção em O papagaio chinês já é mais relevante ao longo de todo o caso.
É, porém, a partir de Atrás da cortina
que Charlie Chan se pode considerar o foco
centralizador na resolução dos crimes em que se envolve.
Quando Charlie Chan é apresentado aos
leitores, em A casa sem chaves, tem o
posto de sargento. Após o caso Atrás da
cortina passa a inspetor e quando resolve o caso O
ladrão de diamantes ficamos a saber que já lhe foi atribuído um gabinete
privado.
Apesar de ser polícia em Honolulu,
Charlie Chan não fica confinado à sua ilha, e é assim que em O papagaio Chinês viaja até ao
continente americano, onde no deserto californiano resolve o caso. Ainda antes
de regressar a casa, tem que, em S. Francisco, encontrar o criminoso no caso
que ficou conhecido por Atrás da Cortina.
De novo em Honolulu encontra o
criminoso em O camelo preto. O Ladrão de diamantes tem o seu
desenlace no barco que faz a ligação entre Honolulu e S. Francisco, e é de novo
em território continental que Charlie Chan se vê envolvido no caso O enigmático criado chinês.
Os portugueses também se cruzaram com Charlie Chan. Um emigrante luso foi preso por Chan ao fazer jogo ilícito na via pública. De salientar que graças à ineficácia de Kashimo, que perdeu a prova do crime, o português foi ilibado em tribunal.
Os casos de Charlie Chan foram todos publicados em Portugal na Colecção Vampiro.
Título em Português, Titulo original, Data da
publicação original
A casa sem chaves, The house without a key, 1925
O papagaio chinês, The chinese Parrot, 1926
Atrás da cortina, Behind that curtain, 1928
O camelo preto, The Black camel, 1929
O ladrão de diamantes, Charlie Chan Carries On ,1930
O enigmático criado chinês, Keeper of the Keys, 1932
Charlie Chan está sempre a pedir
desculpa por perguntar, por sugerir, por responder. Quando fala com alguém,
quase sempre faz um elogio ao interlocutor, em especial quando o quer
contradizer.
Usa e abusa de metáforas e provérbios
chineses. Na maior parte das vezes, ele não informa se está a citar um
provérbio ou se a frase é da sua autoria.
Eis uma pequena lista de provérbios
chineses proferidos por Charlie Chan, e que ele identifica como tal.
*
Aquele que cavalga o tigre não pode apear-se.
* Água lodosa remexida imprudentemente torna-se ainda mais turva. Deixada
em repouso, clareia por si.
*
Está sempre mais escuro debaixo da lâmpada.
*
Um homem prudente, sabendo que está em perigo, não se detém para amarrar
os cordões dos sapatos a meio do caminho.
* Tartaruga que entra em casa pela retaguarda acaba por se instalar à
cabeceira da mesa.
*
A morte é o camelo preto que se ajoelha à porta de qualquer um, sem ser
chamado.
Das muita ”pérolas” que Charle Chan pronuncia,
eis uma pequena seleção.
*
Sem a fidelidade, a nossa rota terrestre não passaria de um charneca
estéril.
*
A paciência é uma virtude galhofeira.
*
As futilidades, às vezes, desabrocham num grande ramo cheio de sentido.
*
Esta visita imprimirá uma marca deslumbrante no rolo da minha memória.
*
As nossas provas são tão turvas como flores na água estagnada de um
charco.
*
Os olhos mais brilhantes são às vezes cegos.
*
Quanto mais forte é o trovão, mais fraca é a chuva.
*
Navio com muitos pilotos nunca chega ao porto.
*
Uma boa palavra rude fere como seis meses de frio.
* O hóspede que demora demais deteriora-se como o peixe passado.
* Uma longa viagem de alguns milhares de milhas começa sempre por um
simples passo.
*
Quando uma árvore cai a sombra desaparece.
*
O homem que quer atravessar o rio
a vau, não deve despertar o crocodilo que dorme.
*
O homem que se senta à beira do rio leva tempo para o atravessar.
*
Se eu tivesse tempo para isso, vergaria a cabeça ao peso da vergonha.
*
Quem corre com a consciência leve, redobra a velocidade.
*
O tambor que produz mais ruído está cheio de vento.
* Mesmo um pêssego que cresce na sombra acaba por amadurecer.
* Rosas do próprio jardim nunca cheiram como as do jardim alheio.
*
Suspeitar é barato, mas ter suspeita errada sai caro.
*
O ovos não devem dançar com as pedras.
*
Príncipes têm censores, pais têm filhos.
*
Corvo pensa que grito de mocho é bela canção.
A última “pérola”, é a derradeira
frase pronunciada por Charlie Chan, quando termina o seu último caso.
*
Há três coisas que homem sábio não deve fazer: arar no céu, pintar
quadros em água e pretender demonstrar sagacidade com mulher.
Charlie Chan é uma personagem, que
sem ser das mais entusiasmantes da literatura policiaria, se pode, no mínimo,
considerar exótica: pelo local onde vive, pela família, pela linguagem e pelas
atitudes.







- Excelente trabalho de pesquisa e documentação! E lá consta o Kashimo... da Prova n.° 7, do "Torneio Quem é?"... que provavelmente fez "perder" algum "pontinho" aos decifradores!
ResponderEliminarO Blogue "A Página dos Enigmas" também está a fazer história no Policiário! Bom trabalho.
Parabéns, ao Confrade Paulo!
...Agora seria necessário os concorrentes/solucionistas comparecerem na decifração da problemística, nos certames de 2026!
...Vamos aguardar.
Saudações Policiárias.
O Gráfico
Todos muito bons👏
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