segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A Página dos Enigmas nº 365

 


Autor: John Dickson Carr


John Dickson Carr é considerado o mestre dos “crimes em quarto fechado”, consequência de a maior parte dos seus romances decorrem nesse tipo de cenário. As obras de “quarto fechado” são sempre fascinantes, uma vez que buscam a ligação que existe entre o fantástico e o racional

Carr é também um dos grandes nomes da chamada “idade de ouro” da literatura policial. Esta idade de ouro decorre entre o início da década de vinte do século passado até aproximadamente 1945, marca um estilo pouco preocupado com problemas sociais ou políticos, e em que o importante é o puzzle criado pelo autor, que o detetive, normalmente da classe aristocrática ou bastante erudito, resolve no final, tendo também o leitor os elementos que possibilitam tirar as mesmas conclusões. Este estilo é marcadamente inglês e John Dickson Carr é um dos poucos autores americanos que o seguiu.

Jorge Luís Borges, escritor argentino, sem dúvida um dos génios da literatura do século XX, e grande admirador da literatura policial, considerava que Carr combinava a rapidez da escola americana com o rigor intelectual da escola inglesa.

A obra de Carr sofreu algumas influências de escritores que o antecederam. Gaston Leroux, Gilbert. K. Chesterton e Conan Doyle são autores que o influenciaram. O seu gosto pelo “quarto fechado” terá sido bebido em Chesterton, que acaba por ser retratado, num acto de homenagem, numa das personagens mais famosas que criou, embora também existam referências na sua obra, da grande admiração que tinha pelo “Mistério do quarto amarelo” de Gaston Leroux.

Foi um estudioso da obra de Doyle, tendo produzido uma biografia do criador de Sherlock Holmes em 1949. Em 1954 escreveu, juntamente com o filho de Doyle, um pastiche, The Exploits of Sherlock Holmes.

Nos seus primeiros livros, (1929-1932), usa um estilo muito melodramático que viria a abandonar, seguindo-se aquele que é considerado o seu período de maior qualidade, os anos que decorreram de 1934 a 1944, surgindo um pequeno declínio em 1936 e 1937.

As histórias de Carr parecem impregnadas de fenómenos de bruxaria e sobrenatural, que no final se esclarecem de forma racional, com a ciência a vencer o obscurantismo.

Logo no inicio dos casos e mesmo durante a investigação do crime surgem imensos eventos secretos e inexplicáveis, mas, na parte final, é tudo revelado, explicando-se todos os factos, embora nem sempre seja claro que o leitor pudesse chegar às mesmas conclusões que o detetive a partir dos elementos conhecidos da investigação.

A obra de Carr não está impregnada só desse ambiente sobrenatural, mas também de episódios bem-humorados, num ambiente de comédia, embora esse humor por vezes oscile entre o bizarro e o tétrico.

As suas chaves apesar de nem sempre serem muito claras, não recorrem a truques. Não há passagens secretas, venenos desconhecidos, irmãos gémeos ou compartimentos ocultos. As histórias de Carr são essencialmente intuitivas, não dependendo de pistas físicas, como pégadas, impressões digitais, restos de tabaco, características de venenos ou balística.

Uma das críticas apontadas a John Dickson Carr é a falta de caracterização e de calor humano das suas personagens e o facto de muitas vezes sacrificar a arte e a técnica, no intuito de deslumbrar o leitor, criando situações que possam impressionar a imaginação.

Em 1955 Carr afirmou ter encontrado 83 chaves diferentes para crimes em quarto fechado. Já em 1933 no livro The hollow man, no capítulo 17, Carr através da personagem de Fell, desenvolve as suas opiniões acerca do que é um crime em quarto fechado e das várias formas como pode ser cometido.

A partir de 1950 Carr começou também a dedicar-se ao romance histórico, mostrando o seu interesse pela história inglesa, que já anteriormente surgira no romance The Arabian Nights Murder

Carr é um escritor que suscita paixões. Tem admiradores incondicionais e imensos detratores que ridicularizam as suas chaves e os seus escritos. Normalmente, esta dualidade de apreciações só é aplicável a quem inova e consegue ser criativo. Apenas a mediocridade provoca a indiferença.


Sem comentários:

Enviar um comentário